(Esse artigo apareceu originalmente em CRITIQUE 23, 1991)

Marxistas revolucionários têm compreendido, por muitas décadas, as realidades sociais da União Soviética, China e outras sociedades ditas “socialistas” como a negação do projeto de emancipação da classe trabalhadora e da humanidade proposto por Marx. Muitos teóricos, a começar por Rosa Luxemburgo em seu A Revolução Russa de 1918 e outros como Mattick, Korsch, Bordiga, Trotsky, Schachtman ou CLR James, têm se dedicado a resolver a famosa “questão Russa”: o sentido específico, para marxistas, da derrota da revolução russa e do sucesso internacional do stalinismo. A diversidade de interpretações surgidas nesse debate aparentemente confirma, acima de tudo, a caracterização de Winston Churchill (muito distante do marxismo e da esquerda), que considerava o sistema soviético como uma “charada, embrulhada em um mistério, dentro de um enigma”. Os herdeiros contemporâneos das teorias de um “estado operário degenerado”, “socialismo de estado”, “coletivismo burocrático” ou “sociedade transitória” têm suas próprias análises e explicações – muitas delas reconfortantes – da decomposição do bloco oriental após 1989. Com o otimismo balanceado característico da tradição marxiana, a maioria dessas correntes acreditava (como este que vos escreve) que a principal candidata ao poder, diante do estado moribundo da burocracia stalinista, seria a classe trabalhadora revolucionária, finalmente lutando por um socialismo verdadeiro. Poucos previram – em especial (ainda que não só eles) os trotskistas, para os quais o bloco oriental possuía bases socialmente superiores ao Ocidente – que os principais competidores pela sucessão pós-stalinista seriam não o marxismo revolucionário, mas sim um neoliberalismo assumidamente pró-ocidental inspirado em von Hayek e Milton Friedman, bem como as renascidas correntes autoritárias de direita do período do entre- guerras (com ex-stalinistas figurando proeminentemente em ambas). Poucos também imaginaram que o fim das bases sociais do stalinismo levaria a uma profunda crise do próprio marxismo. Como a crise do bloco oriental tem estimulado não o surgimento dos sovietes e conselhos operários, mas sim o populismo blood-and-soil, nacionalismo sanguinário, regionalismo, fundamentalismo religioso e anti-semitismo (correntes autoritárias que estão bem mais avançadas do que qualquer oposição de esquerda em sua utilização de sentimentos anti-FMI e anti-mercado), fica mais claro do que nunca que a maioria dos quadros conceituais disponíveis para marxistas, no Ocidente ou no Oriente, para a compreensão da história mundial desde 1917 precisam ser reexaminados urgentemente.

O artigo a seguir é uma modesta contribuição para esse reexame. Ele considera as pouco conhecidas perspectivas do marxista italiano Amadeo Bordiga (geralmente lembrado, quando mencionado, como um dos “ultra-esquerdistas” denunciados por Lenin em Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo) acerca da natureza da União Soviética e explora, de modo mais geral, sua tese de que a questão agrária, fundamental para o autor em sua caracterização do capitalismo, é a verdadeira chave, ainda que raramente discutida, para a compreensão da história da Social Democracia e do Stalinismo, as duas deformações do marxismo que dominaram o século XX. Analisa-se a tese de que a própria Social Democracia europeia (especialmente a alemã), mesmo quando utilizou uma linguagem claramente marxista, foi uma distorção estatista do projeto marxiano, uma teoria para um estágio superior do capitalismo, o emergente estado de bem estar social keynesiano. O argumento é o de que o que está desaparecendo atualmente é o longo desvio estatista na emancipação da classe trabalhadora, que esteve muito mais ligado à substituição de uma revolução burguesa que encabeçasse a industrialização de sociedades atrasadas do que ao socialismo ou ao comunismo. O artigo argumenta, enfim, que a manutenção de qualquer leitura romantizada da história da social democracia alemã anterior ao triunfo do “revisionismo” nos leva a um impasse e falta de perspectivas para o período contemporâneo. A história, sempre adiante da teoria, está limpando os escombros do legado estatista da Social Democracia e do Stalinismo. Hoje a questão de como o projeto marxiano se entrelaçou, a partir da década de 1860, com o projeto estatista do absolutismo ilustrado e suas versões de Aufklaerung se faz mais urgente do que nunca. Ainda mais importante, evidentemente, é a questão de como esse entrelaçamento pode ser desfeito.

Esforços de análise da centralidade da questão agrária na experiência soviética não são, em si mesmos, novos. Figuras como Barrington Moore exploraram tais questões academicamente já há um bom tempo (1). Mas o clima dos anos 1960, quando surgiu o livro de Moore, era de que a essência do capitalismo estava no desenvolvimento industrial, e, como o livro de Moore parecia ecoar palidamente as teorias de revolução permanente e desenvolvimento desigual e combinado de Trotsky, seu trabalho não teve grande impacto nas discussões marxistas. Adam Ulam, ainda mais distante do marxismo, escreveu durante a

Guerra Fria que a verdadeira essência do movimento marxista era a questão agrária (2); seu objetivo era desqualificar o “marxismo” (correspondente, em sua visão, à ideologia soviética) ao demonstrar que ele era um produto do subdesenvolvimento, não do capitalismo. Gerschenkron, de uma riqueza histórica muito maior que Ulam, também parecia uma sombra de Trotsky. (3)

Sem dúvidas o livro do século XX de maior impacto nas visões marxistas sobre a questão agrária, em círculos revolucionários anti-stalinistas, foi o New Economics de Preobrazhensky, que, independentemente de seus problemas, continua sendo essencial para uma compreensão do destino da oposição internacional de esquerda. (4) O conceito de Preobrazhensky acerca de uma “acumulação socialista” baseada no campesinato é, por sua vez, fortemente influenciado pelo livro A Acumulação do Capital de Rosa Luxemburgo; Preobrazhensky argumenta que o “estado operário” pode consciente e humanamente realizar aquilo que, historicamente, o capitalismo tem feito cega e sanguinariamente – a transformação dos pequenos produtores agrários em trabalhadores de fábrica. (Coube à Stalin realizar essa transformação consciente e sanguinariamente.)

Às margens dessa discussão, no que se refere à esquerda ocidental, estão as ideias dessa figura fascinante que foi Amadeo Bordiga. Primeiro Secretário Geral do PCI e, junto com Gramsci, seu mais importante fundador, Bordiga foi o último revolucionário ocidental a dizer na cara de Stálin (em 1926) que ele havia sido o coveiro da revolução e viver para contar a história. Ele foi expulso do PCI naquele mesmo ano e arrastou consigo milhares de “bordigistas”. Em 1928 a “Esquerda Comunista Italiana” (como eles chamavam a si mesmos) votou em Trotsky como “chefe da oposição internacional de esquerda” e assim surgiu um longo diálogo entre Bordiga e Trotsky, que viria a fracassar ao redor dos anos 1931-32. Bordiga é, ainda assim, um dos marxistas mais originais, brilhantes e completamente negligenciados do século. (Seu legado nunca pôde ser suavizado pelo PCI do pós-guerra da mesma forma que o de Gramsci). Ele permaneceu na Itália durante a guerra (após ser expulso e caluniado pelo Comintern como de praxe, ele foi ignorado por Mussolini e seguiu a carreira de engenheiro). Mas é de certa forma após a Segunda Guerra Mundial que o trabalho de Bordiga, no que se refere ao presente, se torna verdadeiramente interessante. Ele viveu praticamente desconhecido até 1970 e chegou até mesmo a escreveu alguns artigos sobre os levantes de 1968. Sua missão após a guerra era, em sua visão, salvar as “lições teóricas” do momento revolucionário dos anos 1917-1921. Como quase todos os revolucionários anti- stalinistas em 1945, ele sentia que isso requeria uma resolução do “enigma Russo”, o que o levou a escrever três livros (nunca traduzidos para o inglês, mas existentes em francês) sobre a revolução Russa e a economia soviética (5). Ele também escreveu uma história em três volumes da Esquerda Comunista Italiana (um termo que designava sua própria facção; a história infelizmente termina em 1921) e muitos pequenos panfletos e tratados. (6) Boa parte desse material é empolado e ilegível, mas ainda assim recompensador para quem decidir encarar o desafio. O que é incomum e estranhamente contemporâneo a respeito da visão de Bordiga é, simplesmente, sua teoria de que o capitalismo equivale a uma revolução agrária. Ele provavelmente elaborou essa interpretação no período pré-1914; alguns de seus primeiros artigos são sobre as posições de socialistas franceses e italianos a respeito da questão agrária. Não é fácil seguir a trajetória de Bordiga; ele acreditava em “anonimato revolucionário”, desprezava o culto à personalidade e frequentemente não assinava seus trabalhos escritos, inclusive seus livros. Uma avaliação bordigista da Revolução Russa foi publicada sob o título Às margens do quinquagésimo aniversário de Outubro de 1917 em 1967.(8) O livro é completamente distinto dos discursos convencionais nas polêmicas acerca de Stalin, Trotsky e “capitalismo de estado” dos EUA, Inglaterra, França e Alemanha. (Por exemplo, Bordiga nunca usa o termo “capitalismo de estado” e raramente utiliza o termo “União Soviética”, em respeito ao fato de que os sovietes haviam sido destruídos há tempos). Para ele, era simplesmente capitalismo russo, sem muitas diferenças em relação a qualquer outro. Bordiga tinha uma vontade saudável de “desrussificar” as preocupações do movimento revolucionário internacional. Ele dizia que o movimento operário havia sido abalado por contrarrevoluções em outras ocasiões históricas (i.e. depois de 1848 com Louis Napoleão) e que não havia nada de especial sobre a Rússia. Por outro lado, sua preocupação por 25 anos com a economia russa desmentia tais colocações. (Particularmente interessante é o fato de que, em 1945, ele previu um longo período de expansão capitalista e reformismo operário, fadado a terminar na próxima crise mundial, inicial em 1975). A análise de Bordiga sobre a Rússia (conforme desenvolvida após 1945) é a seguinte. Enquanto sua facção havia apoiado Trotsky na briga de grupos dos anos 20, em grande medida por razões ligadas à política externa soviética/cominterniana, a interpretação bordigista se distanciou da estratégia de super- industrialização da Oposição de Esquerda, no fim das contas por motivos “bukharinistas”. Ele sentia que após 1945 apenas algo como a estratégia de Bukharin tinha alguma chance de preservar o caráter revolucionário internacional do regime (que para Bordiga era mais importante do que a industrialização Russa), pois não destruiria o partido Bolchevique. Bukharin argumentou nas brigas faccionais de 1924-28 que a implementação da estratégia de “super-industrialização” proposta por Trotsky só poderia ser levada a cabo pela maior burocracia estatal jamais vista na história. (10) Quando Stalin roubou o programa da esquerda e o colocou em prática, ele confirmou o argumento de Bukharin, como o próprio Trotsky veio a admitir disfarçadamente após a maior parte de sua facção ter capitulado à Stalin. (11) Bordiga talvez tenha levado a ideia do caráter internacional da revolução e do regime soviético mais a sério do que até mesmo Trotsky; para ele, a ideia de “socialismo em um só país” era uma distorção grotesca de tudo que o marxismo defendia, o que de fato era. Em seu último confronto com Stalin em Moscou em 1926, Bordiga propôs que todos os Partidos Comunistas do mundo deveriam governar conjuntamente a União Soviética como uma demonstração da realidade supra-nacional do movimento operário. (12) Essa proposta, não preciso dizer, foi recebida friamente por Stalin e seus amigos.

Mas isso é apenas o começo. Os escritos de Bordiga sobre a natureza capitalista da economia soviética, em comparação às produzidas pelos trotskistas, lidam em grande medida com o setor agrário. Ele queria demonstrar como relações sociais capitalistas existiam no kolkhoz e no sovkhoz, o primeiro uma cooperativa agrícola, o outro uma fazenda estatal que empregava trabalho assalariado. (13) Ele enfatizou o quanto a produção agrária dependia de pequenos pedaços de terra de propriedade individual (ele escrevia em 1950) e previu acertadamente as proporções do início da importação de trigo, sendo que a Rússia havia sido uma grande exportadora entre a década de 1880 e 1914.

Os motivos que levaram Bordiga a enfatizar a agricultura em detrimento do setor industrial, como dito anteriormente, veio de preocupações teóricas e estratégicas que antecediam a Revolução Russa. Novamente, para Bordiga, o capitalismo era antes de tudo uma revolução agrária, a capitalização da agricultura. Ele considerava Bukharin de maneira distinta da maioria dos oponentes revolucionários de Stalin por conta dessas preocupações. Ele introduziu uma nova distinção entre Lenin e Trotsky. A maioria das pessoas que distinguem Lenin e Trotsky são stalinistas e maoístas. Bordiga, contudo, vira o jogo para cima dos stalinistas. Utilizando uma formulação de Lenin, ele chamou a Revolução Russa de uma “revolução dual” (14) na qual a tomada de poder pelo proletariado foi possibilitada pelo término das tarefas de uma revolução burguesa, em especial a destruição das relações sociais pré-capitalistas na agricultura. O grande protótipo desse processo foi, sem dúvidas, agosto de 1789 na França. Trotskistas sempre disseram que “Lenin virou trotskista” em Abril de 1917 ao aceitar as teses da revolução permanente. Mas Lenin na verdade havia discordado de Trotsky em alguns detalhes, e isso apareceu em suas formulações de 1920-22 sobre a natureza do novo regime, acima de tudo em seus memoráveis discursos para o congresso do partido em 1921 e em suas polêmicas com a Primeira Oposição Operária, que acusava o estado soviético de ser um “capitalismo de estado”. Em sua resposta, Lenin argumentou que capitalismo de estado seria um enorme passo adiante em relação ao que a Rússia realmente era: um capitalismo de pequenos produtores com um partido político da classe trabalhadora controlando o estado (15). Para Bordiga, assim que essa expressão política da classe trabalhadora foi destruída pelo stalinismo, tudo que restou foi um capitalismo de pequenos produtores. O uso do termo “estado operário com deformações burocráticas” utilizado por Lenin em princípios dos anos 20 era bem diferente do termo semelhante utilizado por Trotsky em 1936. Não é necessário recapitular aqui toda a história de quem disse o quê sobre essa questão. O que se esconde por detrás desses diferentes julgamentos táticos e estratégicos são duas concepções distintas de marxismo. Para Trotsky e os trotskistas, o caráter permanente da revolução se refletia nas “formas de propriedade” e se expressava, posteriormente, no crescimento das forças produtivas. Para Bordiga, o crescimento das forças produtivas era meramente uma prova do caráter burguês do fenômeno soviético. Ele virou os stalinistas do avesso ao dizer que o problema de Trotsky não era que este “subestimasse” o campesinato, mas sim o de que ele superestimou a possibilidade de que camponeses, bem como a revolução agrária de pequenos produtores, pudesse ter alguma relação com a revolução proletária.

Na visão de Bordiga, Stalin e, posteriormente, Mao, Ho e outros eram “grandes revolucionários românticos” no sentido oitocentista, isto é, revolucionários burgueses. Ele sentia que os regimes stalinistas que surgiram após 1945 apenas ampliavam a revolução burguesa através da expropriação dos Junkers prussianos pelo Exército Vermelho, com suas políticas agrárias e o desenvolvimento das forças produtivas. Às teses do grupo de ultra- esquerda francês “Socialismo ou Barbárie”, que denunciava o regime pós-1945 como capitalista de estado, Bordiga respondeu com o artigo “Avanti Barbati!” (“Em frente, Bárbaros!”), que exaltou o lado revolucionário burguês do stalinismo como seu único conteúdo verdadeiro.(18) (Não é preciso concordar com Bordiga para reconhecer que isso era um ponto de vista mais coerente do que a estupidez das análises trotskistas pós-1945 que consideravam os stalinistas no leste europeu, China ou Indochina como reformistas trepidantes que não viam a hora de se venderem para o imperialismo.)

O avanço da perspectiva de Bordiga em relação à Trotsky está, acima de tudo, em sua crítica da ideia, inserida no trotskismo e nos trabalhos daqueles que se baseiam nessa corrente, de que Stalin e o stalinismo representariam um “centro” entre uma direita bukharinista e uma esquerda trotskista. Não dá nem para imaginar como uma vitória da “direita” Bukharinista no debate sobre industrialização poderia ter prejudicado ainda mais o movimento internacional dos trabalhadores do que o triunfo do “centro” stalinista efetivamente fez. Ainda assim, qualquer tentativa acrítica de se traçar uma linha de continuidade marxista que inclua Trotsky após 1924 incorpora silenciosamente esse espectro “esquerda à direita” e suas consequências.

Trotsky escreveu em 1936 que o “Socialismo demonstrou seu direito à vitória não nas páginas de Das Kapital,… mas na linguagem do aço, concreto e eletricidade.” (19) Ao estender a teoria da revolução permanente da formação dos sovietes (1905, 1917) para formas de propriedade estatais e para o desenvolvimento das próprias forças produtivas (isto é, a prova de que a natureza socialista deformada do regime era sua capacidade de desenvolver a indústria em uma “era de decadência imperialista”), Trotsky exacerbou aquilo que chamo de caráter de “revolução burguesa substituída” do marxismo da Segunda e Terceira Internacionais.

Trotskistas do pós-guerra (pelos quais Trotsky obviamente não era responsável) viram a industrialização dos regimes stalinistas durante o período em que o Terceiro Mundo não demonstrava quaisquer sinais de desenvolvimento como a prova definitiva de seu caráter socialista deformado. Contra essa perspectiva, Bordiga argumentou que “não se constrói o comunismo”. A tarefa de “desenvolvimento das forças produtivas” não cabe aos comunistas. Disse ainda que “é certo que as ‘bases do socialismo’ estão sendo construídas na União Soviética”; para ele era exatamente essa a prova do caráter burguês do regime.

Um exemplo importante de corrente que abandonou o viés pró-stalinista do trotskismo sem examinar o legado das lutas faccionais dos anos 20 foi a tradição schachtmanite e sua análise do “coletivismo burocrático”. Sua versão da década de 40, ao menos, enxerga um dinamismo stalinista capaz de se espalhar pelo mundo (20), o rival do socialismo que se sucederia ao capitalismo por um tempo, algo que a história desmentiu mais recentemente. Além disso, para a crítica schachtmanite, o foco é na questão da “democracia”, que para eles é basicamente tudo. O socialismo é concebido como um “coletivismo democrático”; sua ausência, portanto, bem como a ausência de formas capitalistas superficiais, indica a existência de um “coletivismo burocrático”. Em outras palavras, o grande conflito dessa tradição com o stalinismo e, posteriormente, com o trotskismo girou em torno do fato de que o que se passou na Rússia após 1917 ou 1921 foi anti-democrático. Isso sem dúvida foi importante, mas essa tradição incorpora discretamente toda a “linha de continuidade” contendo Trotsky e o Lênin trotskista, enquanto ignora as previsões de Bukharin sobre o estado. Essa visão (a tradição schachtmanite praticamente ignora a crítica marxiana da economia política) girou em torno da contraposição burocracia/democracia e, consequentemente, como Trotsky, inseriu a noção de “tarefas” da revolução burguesa que se infiltraram no marxismo da Segunda e Terceira Internacionais. Com a exceção de Bordiga, ninguém na esquerda revolucionária anti-stalinista mencionou o impulso para o “desenvolvimento das forças produtivas” como prova de que a União Soviética não era um estado operário de algum tipo; para os trotskistas, pelo contrário, essa é justamente a prova definitiva de que, no quadro da nacionalização e planejamento, ele era.

Bordiga, no entanto, foi além. Como era um engenheiro, Bordiga possuía uma rigidez teórica que era ao mesmo tempo desesperadora e efetiva ao permitir que ele enxergasse as coisas diferentemente. Ele basicamente acreditava que o “programa comunista” havia sido definido de uma vez por todas por Marx e Engels no Manifesto de 1847 e confirmado no ano seguinte pelo aparecimento da corrente comunista na França junto com outros movimentos operários. Seu pensamento era o de que Marx e Engels haviam desenvolvido uma metodologia “invariável” e que os “inovadores” sempre se revelavam, mais cedo ou mais tarde, como filisteus burgueses espertos a caminho do bersteinianismo ou algo do tipo. Essa posição sobre os princípios estabelecidos em 1848, no entanto, o levou a conclusões impressionantes acerca de toda uma dimensão da tradição marxista que, uma vez mais, está basicamente esquecida. Bordiga acreditava que tudo de importante a respeito da questão russa já havia sido dita por ocasião da morte de Marx em 1883 (21). Isto é: a correspondência de Marx com os Populistas na década de 1870, os dois metros cúbicos de notas sobre a agricultura russa que ele deixou quando morreu (ele não terminou O Capital por ter ficado fascinado com a questão agrária russa em sua última década de vida) e os diversos prefácios, para o Manifesto e outros escritos, produzidos durante o período 1878-1883 que refletiam seu envolvimento com a Rússia. (Ele até mesmo escondeu de Engels a extensão desse interesse, que ficou furioso quando descobriu que os escritos sobre a questão russa foram o verdadeiro motivo pelo qual O Capital não havia sido terminado). (22) O importante para Bordiga era a descoberta da comuna russa por Marx, e a crença deste, entre 1878 e 1881, de que a Rússia poderia literalmente pular a fase capitalista da história, mesmo na ausência de uma revolução no Ocidente, e que os camponeses, antes da capitalização da agricultura, poderiam ser fundamentais nesse processo. Marx escreveu (em sua famosa carta para Vera Zasulich) que “se a Rússia seguir o caminho que tomou após 1861, ela perderá a grande chance de evitar as alternativas fatais ao regime capitalista que a história ofereceu para um povo. Como todos os outros países, ela terá que se submeter às leis daquele sistema”. (23) Próximo de sua morte, Marx chegou à conclusão de que a Rússia havia perdido a chance, e assim falou para os Populistas Russos. Para Bordiga, a citação acima era o legado marxista sobre a “questão Russa”, e “todo o processo sangrento de acumulação capitalista” uma profecia cumprida por Stalin. Todo esse aspecto da relação de Marx com a Rússia foi esquecido em arquivos empoeirados e notas de rodapé por 80 ou 90 anos, ainda que tenha sido recentemente lembrado por figuras como Jacques Camatte e Theodor Shanin. (24).

Não é possível comentar Bordiga honestamente sem mencionar sua posição a respeito da democracia. Ele orgulhosamente se definia como “anti-democrático” e acreditava estar de acordo com Marx e Engels a esse respeito. (Sua relação com a questão agrária vai ficar clara). A hostilidade de Bordiga com a democracia não tinha absolutamente nenhuma relação com o ganguismo stalinista. Na verdade, ele via o fascismo e o stalinismo como o ápice da democracia burguesa! (25) A democracia para Bordiga era, acima de tudo, a manipulação da sociedade como uma massa disforme. Contra isso ele colocava a “ditadura do proletariado”, implementada pelo partido comunista fundado em 1847, baseado nos princípios e no programa enunciado em seu manifesto. Ele frequentemente se referia à observação de Engels de que “às vésperas da revolução, todas as forças da reação se levantarão contra nós sob a bandeira da “democracia pura’”. (Como, de fato, toda facção de oposição aos bolcheviques em 1921, dos monarquistas aos anarquistas, chamou pelos “sovietes sem bolcheviques”.) Bordiga se opunha à ideia de um conteúdo revolucionário como produto de um processo democrático que incluísse visões pluralistas; quaisquer que fossem seus problemas, à luz dos últimos 70 anos, essa perspectiva tem o mérito de frisar que o comunismo (como todas as formações sociais) é acima de tudo um conteúdo programático expresso em suas formas. Ela enfatiza o fato de que, para Marx, o comunismo não é um ideal a ser atingido mas um “movimento real” nascido da velha sociedade com um conjunto de tarefas programáticas. (26) No clima da New Left da década de 60, no qual presumia-se que “questões econômicas” haviam sido superadas pela “sociedade da afluência”, o debate praticamente girou em torno da oposição burocracia/democracia e “formas de organização” (27), levando a um formalismo metodológico que teve pouca utilidade quando, após 1973, uma crise econômica mundial transformou todas as regras das lutas. Em outro contexto, Bordiga, quando pressionado a identificar a classe capitalista no que chamava de capitalismo russo, argumentou que ela existia nos interstícios da economia russa, como uma classe em formação. Para ele a ideia de “capitalismo de estado” era absurda, já que o estado só poderia ser uma ferramenta dos interesses de uma classe; interpretar “o estado” como capacitado a fazer algo como estabelecer um modo de produção era um abandono do marxismo. Para Bordiga, a União Soviética era uma sociedade em transição para o capitalismo. (28).

Essa crítica ao formalismo tinha consequências políticas. Ela estava atrelada à noção de Bordiga acerca do papel do partido comunista. Ele resolutamente se opôs à guinada para a direita do Comintern em 1921; como Secretário Geral do PCI, ele se recusou a implementar a estratégia de “frente unida” do Terceiro Congresso. Ele se recusou, em outras palavras, a fundir o recém-formado PCI, dominado por “bordigismo”, com a esquerda do PSI, do qual aquele havia acabado de se separar. Bordiga tinha uma visão do partido completamente distinta do Comintern, que se adaptava ao declínio revolucionário anunciado, em 1921, pelo acordo comercial anglo-russo, Kronstadt, a implementação do NEP, a expulsão de facções e a derrota da ação de Março na Alemanha. Para Bordiga, a estratégia dos Partidos Comunistas da Europa ocidental – a absorção de uma massa de sociais-democratas de esquerda com uma “frente unida” – era uma capitulação completa ao período de declínio contrarrevolucionário que ele via se estabelecendo. Esse era o núcleo de sua crítica à democracia. Pois era em nome da “conquista das massas” que o Comintern aparentemente estava fazendo todo tipo de concessão programática para os sociais-democratas de esquerda. Para Bordiga o programa era tudo, um mero crescimento numérico sem significado não era nada. O papel do partido nesse período de declínio era preservar o programa e levar adiante o trabalho possível de agitação e propaganda até a próxima virada da maré, e não diluí-lo em troca de uma popularidade efêmera. É possível criticar tal perspectiva com o argumento de que seu resultado pode vir a gerar a formação de uma seita, como os bordigistas na verdade se tornaram. Ela tem, no entanto, o mérito de enfatizar outra verdade que tem sido ignorada pelas alas trotskistas da oposição internacional de esquerda e seus herdeiros: quando os partidos de “massa” fora da Rússia incorporaram o stalinismo em meados dos anos 20, as bases para isso haviam sido estabelecidas pela guinada de 1921. Não é preciso aceitar a visão anti- democracia de Bordiga para enxergar isso: ele ignorou completamente o papel dos sovietes e conselhos operários na Rússia, Alemanha e Itália. Mas a respeito das consequências “sociológicas” da frente unida de 1921 para o futuro dos PCs ocidentais – sua “bolchevização” após 1924 – Bordiga estava certo e o Comintern errado. Pois historicamente, a base social de boa parte do stalinismo pós-1924 adentrou os PCs ocidentais através da tática de “frente unida” de 1921. (29) Bordiga forneceu um meio de ver a degeneração fundamental no movimento comunista mundial em 1921 (ao invés de 1927, com a derrota de Trotsky) sem mergulhar em gritos vazios por “mais democracia”. A perspectiva abstrata formal da burocracia/democracia, utilizada pela tradição trotskista em sua interpretação desse período crucial da história do Comintern, foi separada de qualquer conteúdo. Ao longo de sua vida Bordiga se considerou um leninista e nunca polemizou diretamente com Lênin, mas sua interpretação completamente distinta da conjuntura de 1921, com suas consequências para o Comintern, e sua oposição à Lênin e Trotsky a respeito da questão de uma frente unida iluminam um momento chave que foi obscurecido pelos herdeiros da ala trotskista da oposição internacional de esquerda dos anos 20.

A ideia de Bordiga de que o capitalismo é equivalente a uma revolução agrária é fundamental para o século XX; é certamente central para praticamente tudo que a esquerda chamou de “revolucionário” no século XX e é certamente crucial para repensarmos a história do marxismo e seu entrelaçamento com ideologias de industrialização em regiões atrasadas da economia mundial.

Bordiga evidentemente não fornece a chave para a “desrussificação” das “lentes” utilizadas pelo movimento revolucionário internacional para ver o mundo, mas as consequências de sua visão sobre a questão agrária fornece. Até meados dos anos 70, a “questão Russa” e suas implicações eram o “paradigma” inevitável das perspectivas políticas da esquerda na Europa e nos EUA. Ainda assim, 15 anos depois, ela parece história antiga. Esse era o ambiente político em que o estudo minucioso da história mês- a-mês da revolução Russa e do Comintern de 1917 a 1928 pareciam ser a chave para todo o universo. Se alguém dissesse acreditar que a Revolução Russa havia sido derrotada em 1919, 1921, 1923, 1927, 1936 ou 1953, era possível ter uma ideia do que essa pessoa pensava a respeito de praticamente todas as outras questões políticas do mundo: a natureza da União Soviética, da China, dos PCs, da Social Democracia, dos sindicatos, da Frente Unida, da Frente Popular, dos movimentos de liberação nacional, da estética e da filosofia, da relação entre partido e classe, da importância dos sovietes e conselhos operários e, finalmente, quem estava certo, entre Luxemburgo e Bukharin, a respeito do imperialismo.

Se simplesmente enunciarmos os principais acontecimentos na história mundial desde 1975 perceberemos como nossa forma de ver o mundo mudou profundamente; basta lembrarmos a realidade da Inglaterra de Thatcher durante os anos 80, a América de Reagan, a França de Miterrand, a Rússia de Gorbachev, a China de Teng, ou seja, a onda “neoliberal” (no sentido dado por von Hayek/von Mises ao termo) que arrastou o estatismo da Social Democracia, o stalinismo, keynesianismo e o bonapartismo terceiro- mundista. Um conhecimento profundo da Revolução Russa entre 1917 e 1928 e a “visão de mundo” que daí surge parece ser um péssimo guia para se entender a evolução da China após 1976, a Rússia sob Gorbachev, o surgimento dos NICs (Países Recentemente Industrializados), a guerra da China/Vietnã/Camboja, o colapso dos PCs europeus ocidentais, o total controle do British Labour Party, do American Democratic Party e do SPD alemão pela direita, a evolução de Miterrand ao neoliberalismo ou a aparição de correntes anti-estatistas significativas em regimes mercantilistas como México ou Índia. Podemos adicionar a essa lista o movimento de trabalhadores com uma alta dose de nacionalismo clerical na Polônia e o renascimento do fundamentalismo no Islã, Judaísmo e Cristianismo, desindustrialização, alta tecnologia e gentrificação. Nenhum desses eventos desqualifica o marxismo, mas eles aparentemente desqualificam o esforço, quase universal da esquerda ocidental até os anos 70, de ver o mundo através de lentes herdadas da Revolução Russa e seu destino.

O melhor das fases heroicas da social-democracia alemã e do bolchevismo russo não são suficientes para nos guiar nessa nova realidade, ainda que, nesse contexto, um third camper nunca tenha tido qualquer ilusão acerca das formações políticas estatistas em declínio a partir de meados dos anos 70. Ainda assim, tais third campers, aceitando o Imperialismo de Lenin e um conjunto de outros prognósticos dos três primeiros congressos do Comintern, acreditavam, como os stalinistas, que o mercado mundial capitalista era incapaz de industrializar qualquer parte do Terceiro Mundo, e, como eles, ficaram atordoados com a emergência dos NICs. (30) Mas há uma pancada mais profunda, uma que acerta o coração da identidade revolucionária derivada da Segunda e Terceira Internacionais. Se “mapearmos” os partidos comunistas de massa ou regimes existentes na Europa entre 1920 e 1975, veremos que eles coincidem quase que exatamente com a distribuição dos estados do despotismo esclarecido entre 1648 e 1789. Isto é: França, Alemanha, Rússia, Espanha, Portugal, Suécia (o mais importante PC escandinavo, o único a continuar após a Segunda Guerra Mundial como algo além de uma seita). Os PCs de massa estão ausentes na Inglaterra, EUA, Holanda e Suíça (bem como nos “estados coloniais” mais anglófonos como Austrália, Nova Zelândia e Canadá). A exceção, aparentemente, é o PCI. Mas a Itália gerou o protótipo do absolutismo ilustrado com suas importantes cidades-estados mercantilistas, e as bases da força regional do PCI parecem estar relacionadas às diferentes experiências regionais durante a fase histórica do antigo regime. Por fim, o PCI era e é o mais “social democrata” de todos os grandes PCs ocidentais após 1956; é justamente por isso que é o único que ainda existe.

A conexão entre a presença de um estado de despotismo esclarecido em 1648 e um PC de massas ou um estado stalinista em 1945 é a questão agrária. Esses estados, com a França como protótipo, foram criados para acelerarem a capitalização da agricultura. Conscientemente ou não, eles fizeram com seus camponeses algo parecido com o que o estado soviético viria a fazer com os camponeses russos a partir de 1928, e o que os regimes capitalistas liberais do século XIX fizeram. Os estados absolutistas ilustrados saquearam os camponeses, através de impostos, como uma forma de acumulação. Esses métodos foram uma resposta ao sucesso das sociedades civis que surgiram nos países “calvinistas”, cujo sucesso se baseou na rápida capitalização da agricultura, primeiramente na Inglaterra. O capitalismo é antes de tudo uma revolução agrária. Antes de podermos ter indústria, cidades e trabalhadores urbanos, é preciso uma revolução na produtividade agrícola para se ter o excedente que liberte a força de trabalho da terra. Onde isso não havia sido conseguido em 1648 (com o fim da Guerra dos Trinta Anos e, consequentemente, das guerras religiosas), o processo teria que ser realizado estatalmente pelo alto. Assim surgiu a tradição mercantilista que, após a Revolução Francesa, persistiu até o século XX como um mercantilismo mais maduro. Isso caracterizou o Segundo Império de Luís Napoleão (1852-1870) e, acima de tudo, a Prússia de Bismarck e a Alemanha por ela dominada. (32) Esta, em especial, foi copiada por todos os “desenvolvimentistas tardios” do mundo após a unificação alemã de 1870, começando com a Rússia.

Aqui surge o modelo de Barrington Moore (colocado agora sob outra perspectiva): a década de 1860 foi uma conjuntura fundamental. Nela ocorreu a Guerra Civil dos EUA, a unificação da Alemanha, a unificação da Itália, a emancipação dos servos russos e a Restauração Meiji no Japão. Poderíamos ainda adicionar o desenvolvimento do Segundo Império industrial da França e a criação da Terceira República, mas isso é secundário. Aparentemente, se um país não estivesse “reorganizado internamente” em 1870, ele não tinha chances de ser parte do “círculo interno” de países substancialmente industrializados em 1914. Em segundo lugar, dos cinco países mencionados (deixando a França novamente de lado), quatro eram estados mercantilistas totalitários/autoritários em 1933. Dos principais países, apenas aqueles que participaram significativamente na primeira economia capitalista do Atlântico Norte (Grã-Bretanha, França e EUA) escaparam das soluções mercantilistas autoritárias dos anos 30, e apenas os EUA dentre os cinco que se reorganizaram na década de 1860. (Isso é uma pista importante do peso da experiência histórica pré-industrial). Por que a década de 1860 foi aparentemente um momento tão importante? A resposta parece ser: a crise mundial de 1873, especialmente a crise agrária. (33) Quando os EUA, Canadá, Argentina, Austrália e Rússia surgiram como grandes exportadores de grãos, eles basicamente recriaram as oposições de 1648 novamente: os estados continentais, reagindo à crise agrária de 1873- 1896, tiveram que recorrer ao protecionismo para preservar suas agriculturas nacionais. O caso mais importante foi a aliança entre industrialistas e junkers, o “ferro e centeio”, em 1879, que concluiu a domesticação do capitalismo alemão e do liberalismo pelo estado Prussiano/Alemão controlado pelos Junkers. Situações semelhantes, contudo, surgiram na França, Ibéria, Itália e no império Austro-Húngaro. O surgimento dos EUA, Canadá, Argentina e Austrália no mercado agrícola mundial traçou uma linha ao redor do núcleo de desenvolvimento capitalista por mais de um século. Em 1890 era mais barato transportar trigo de Buenos Aires para Barcelona do que carregá-lo por 100 milhas em transportes terrestres. Os setores agrícolas dos estados mercantilistas continentais se tornaram internacionalmente inviáveis. O impacto desse estado de coisas sobre o desenvolvimento do movimento dos trabalhadores não recebeu a atenção que merece.

A tradição revolucionária encarou o socialismo/comunismo essencialmente como um produto da explosão do Terceiro Estado após a Revolução Francesa: em Babeuf, nos Enrages e outros elementos radicais que surgiram à esquerda dos Jacobinos; acima de tudo, na revolução de 1848 na França e no resto da Europa (incluindo os chartistas que aumentaram na Inglaterra em 1848). A história parecia convincente: a linha ligando 1793-94 a 1917-21 passa da França para a Alemanha para a Rússia nas revoluções francesas de 1830, 1848 e na Comuna; no surgimento do SPD até 1914; no 1905 e 1917 russos; atingindo o ápice no fracassado levante revolucionário de 1917-21, com situações quase revolucionárias na Alemanha, Itália, Inglaterra e Espanha, bem como greves e insurreições em quase toda parte do mundo. Este último é o ápice do “movimento operário clássico”. CLR James tem falado da necessidade de reconstituir o momento histórico de derrota da frente Alemã-Russa em 1917-1918; isto é, que com o fracasso da revolução alemã e a derrota da onda revolucionária mundial, a revolução mundial atingiu o seu melhor momento até o presente. Essa trajetória é o modelo da ortodoxia Lenin- Trotsky. Se a revolução alemã tivesse salvo a Rússia do isolamento, o século XX teria tomado um rumo completamente distinto. Essa visão da história foi uma “ferramenta heurística” extremamente útil para se evitar as armadilhas da social-democracia, stalinismo, maoísmo e terceiro mundismo. Operar nessa tradição, seja como trotskista, third camper ou ultra-esquerdista, significa analisar a história da perspectiva dos sovietes alemães e russos de 1917-1921. Certamente não é um ponto de vista deficiente para se realizar análises históricas; é muito superior ao estado de bem estar social keynesiano, aos sucessos stalinistas no primeiro Plano de Cinco Anos ou às comunas agrárias de trabalho intensivo na China enquanto noções de sociedades socialistas. Contudo, ela leva a um impasse. Tendemos a olhar para a história como um estrategista do Comintern em 1920, buscando continuar a partir de onde as revoluções contra os Hozenzollems, Habsburgos e Romanovs na Europa Central e Oriental haviam parado. Contudo, um cisma histórico separa essas revoluções, bem como sua natureza dual, do presente. (34) O caráter dual da revolução de Outubro era o de uma revolução na qual as tarefas históricas da revolução burguesa foram realizadas sob a liderança da classe trabalhadora, tendo, posteriormente, seu conteúdo político proletário completamente eliminado pela contrarrevolução stalinista. Traçar uma “continuidade” acriticamente através de Lenin e

Trotsky como as extensões exatas de Marx em princípios do século XX, tornar a Revolução Russa o grande teste do século XX (“o momento de transformação em que a história não conseguiu transformar”, como alguém colocou) é “comprar” toda uma visão da história anterior e posterior a 1917. Significa, acima de tudo, aceitar uma mitologia acerca da social-democracia alemã como uma formação marxista revolucionária anteriormente àquela data, seja em 1890, 1898 ou 1914, quando o SPD teria sido então dominado pelo “revisionismo”. Se há um único mito na base da visão influenciada pelo “melhor da Social Democracia alemã e do bolchevismo russo” que agora se tornou problemático, é essa leitura idílica do período inicial do SPD. É através dessa visão que a esquerda internacional foi colonizada pelas lentes do Aufklaerung oriunda do serviço civil dos estados despóticos ilustrados.

Nota-se esse impasse em diversos níveis. Comecemos pelo materialismo não- marxista “vulgar”, o pão com manteiga do movimento operário tradicional, originalmente concentrado no SPD e, posteriormente, no partido bolchevique da Segunda, Terceira e Quarta Internacionais.

Como muitos se perguntaram após descobrirem os Manuscritos de 1844, os Grundrisse, os traços hegelianos em O Capital, as Teses sobre Feuerbach, Lukacs, Korsch e outros, como pôde o movimento clássico dos trabalhadores ter sido tomado pelo “marxismo vulgar”? Por que o materialismo pré-kantiano (o materialismo que, diferentemente de Marx, não passou pela diálogo com o idealismo alemão e Feuerbach) se parece tanto com o materialismo setecentista do iluminismo anglo-francês, isto é, a ideologia da revolução burguesa? Como é possível empreender uma explicação marxista da hegemonia histórica do marxismo vulgar, considerando que o marxismo rejeita de antemão o julgamento psicológico/moralista de que “eles tinham as ideias erradas”? A resposta não parece complicada: se o materialismo do movimento operário clássico, centrado no SPD entre 1860 e 1914 e ampliado pela Revolução Russa, era epistemologicamente pouco diferente do materialismo revolucionário de natureza burguesa, a conclusão é que o movimento clássico dos trabalhadores no Leste e Centro da Europa era uma extensão da revolução burguesa. Ao nos colocarmos na posição de admiradores da fase heroica inicial da SPD, é difícil de pensar em qualquer outra explicação que faça sentido. Isso não está longe, afinal de contas, da teoria de Trotsky de desenvolvimento desigual e combinado: onde a burguesia é fraca e incapaz de desafiar o antigo regime, a tarefa passa a ser da classe trabalhadora. (O esforço de Trotsky era em acreditar que a classe trabalhadora estava realizando uma revolução socialista.) Esse “marxismo vulgar” forneceu a “visão de mundo” expressa nos panfletos populares do Engels tardio e nos escritos de Bebel, Kautsky, William Liebknecht, o Bernstein pré- revisionista e Plekhanov – as eminências pardas da Segunda Internacional, que educaram Lenin e os bolcheviques. Não devemos esquecer que Lenin não adotou a ortodoxia de “centro” de Kautsky e do SPD antes de 1910-1912 e que, em 1914, ele não conseguia acreditar nos artigos de jornais que colocavam que o SPD havia votado a favor da guerra. Essa era sua proximidade dessas influências. Ele escreveu Imperialismo para explicar o colapso do SPD; Trotsky posteriormente adicionou a “ausência de uma liderança revolucionária” como explicação da derrota na Europa ocidental após a guerra. A imagem de Lenin correndo para a biblioteca de Zurique em setembro de 1914 para ler a Lógica de Hegel (35), conforme colocada por Raya Dunayevskaya, pode ser apócrifa ou não; ainda assim, o “Lenin tardio” não teve impacto sobre o marxismo oficial após 1917, inclusive a Quarta Internacional. As visões filosóficas de Lukács e Korsch foram excluídas do Comintern em 1923. Nos círculos intelectualmente mais astutos na esquerda dos EUA em meados dos anos 60 (anteriormente à onda de traduções do francês, alemão e italiano que surgiu após 1968), talvez o mais sofisticado texto disponível em inglês a respeito da base filosófica do marxismo tenha sido Towards an Understanding of Karl Marx de Sidney Hook. Isso não era culpa de ninguém; era apenas um reflexo do fato de que o impacto causado pela descoberta dos primeiros escritos de Marx, da real extensão de sua dívida com Hegel, da crítica do materialismo vulgar nas Teses Sobre Feuerbach e de trabalhos como os Grundrisse foi realmente além de pequenos círculos de especialistas apenas nos anos 50 e 60. Deveria haver, no entanto, uma razão histórica para isso; não era apenas uma questão do que era publicado aonde e quando (o Grundrisse, por exemplo, teve uma primeira edição de apenas 200 cópias na Alemanha e em Moscou em 1941).

A chave desse anacronismo ideológico no marxismo e na história da classe trabalhadora claramente não pode ser, como dito anteriormente, que “eles tivessem as ideias erradas”. A resposta deve se encontrar em um nível mais profundo da história da acumulação e de como esta influenciou a luta de classes internacionalmente. A tradição bordigista novamente desenterrou perspectivas que foram bem marginais nos debates gerais dos anos 60 e 70, visões que, acredito, unem a questão agrária, a periodização da acumulação capitalista, o verdadeiro papel histórico da social-democracia e do bolchevismo, e a ligação histórica entre o absolutismo ilustrado do século XVII e os partidos comunistas de massa do XX.

A perspectiva mais interessante desenvolvida para iluminar essas questões foi a dos “neo-bordigistas”, correntes francesas influenciadas por Bordiga, ainda que não acriticamente; as melhores delas tentaram combinar Bordiga (que ignorava a importância histórica dos sovietes, conselhos operários e a democracia dos trabalhadores e colocava toda a importância no partido) com a ultraesquerda alemã e holandesa (que glorificava os conselhos operários e explicava todos os erros após 1917 em termos de “leninismo”).

Todas as correntes francesas dão importância central para um texto de Marx que, a longo prazo, pode ser mais importante do que todo o resto do novo material que começou a ser desenterrado nas décadas de 1950 e 60: o famoso “Sexto Capítulo Não- Publicado” do primeiro volume de O Capital. (36) Não se sabe porque Marx o removeu de sua versão original do primeiro volume, mas é uma Fenomenologia da Mente materialista. Dez páginas bastam para desmentir o argumento althusseriano de que Marx teria esquecido Hegel em sua “fase tardia”. Entretanto, a afirmação de uma continuidade com o método de Hegel é o que menos importa; as categorias fundamentais elaboradas no texto são as distinções entre mais-valia absoluta e relativa, bem como aquilo que Marx chamou de fases “extensivas” e “intensivas” de acumulação, correspondentes à dominação “formal” e “real” do capital sobre o trabalho. Estas são introduzidas de modo bem teórico; Marx não procura aplicá-las na história geral. Mas a ultraesquerda francesa começou a periodizar a história do capitalismo baseada exatamente nessas distinções. Fases “extensivas” e “intensivas” da história do capitalismo não são usadas apenas por marxistas; elas também são utilizadas por historiadores econômicos burgueses como instrumentos de descrição. Uma corrente resumiu a distinção em sua essência como “a fase na qual o trabalhador é de-substancializado, sobrando apenas o proletário”. (37) Nessa frase está a condenação de toda a escola Gutman da nova história do trabalho. A transição para a acumulação “intensiva” no sexto capítulo é apresentada como a “redução do trabalho para a forma capitalista mais geral de trabalho abstrato”, a definição concisa do processo de trabalho na produção em massa do século XX no mundo capitalista avançado. A nova história do trabalho é uma longa canção nostálgica pela fase de dominação formal.

O “Sexto Capítulo Não-Publicado” também ilumina o “renascimento de Hegel” no marxismo, bem como o fato de que o interesse pela influência hegeliana em Marx tenha aparecido inicialmente na Alemanha dos anos 20 (Lukács, Korsch e a Escola de Frankfurt), mas apenas nos anos 50 na França. Na verdade, o marxismo vulgar se tornou uma ideologia influente apenas na França – na intelligentsia – dos anos 30 e 40, isto é, durante a época da Frente Popular e de Resistência. O que explicaria esse espaço de 30 anos entre a França e a Alemanha? A resposta óbvia deve ser a imensa superioridade do desenvolvimento industrial na Alemanha dos anos 20, enquanto a França passou a competir apenas na década de 50. Parece haver uma ligação entre um marxismo “hegelianizado” e as condições daquilo que poderíamos chamar de “acumulação intensiva” e “dominação real”. Igualmente curioso é o fato de que a Itália possuía uma cultura marxista mais sofisticada, de maior influência alemã, muito antes da França. Isso deve estar relacionado, de algum modo, à condição da Itália como “atrasada” política em comparação à participação da França na primeira economia capitalista do Norte Atlântico e na onda revolucionária burguesa de 1770-1815. A tradição jacobina na França, expressa no racionalismo associado à Comte, Saint Simon e Guesde, no idealismo kantiano de Jaures, no racionalismo de até mesmo tradições anarquistas (com suas crenças em uma ciência anticlerical) ou, enfim, no positivismo laique et republican da Terceira República, permaneceu abaixo do pensamento pós-kantiano alemão. A Itália se tornou mais “alemã” na década de 1890; a França o foi apenas nas décadas de 1930 e 40.

A tradição Lenin-Trotsky divide a história do capitalismo em duas fases, separadas pela Primeira Guerra Mundial, que teria inaugurado uma “época de decadência imperialista”. As fontes teóricas dessa teoria vêm da discussão sobre o “capital monopolista” anterior à Primeira Guerra Mundial: Hobson, Hilferding e Lenin. Ela foi popularizada pelo Imperialismo de Lenin. O capitalismo no auge da Segunda Internacional parecia diferente do sistema descrito em Marx (é importante lembrar que os volumes 2 e 3 só se tornaram disponíveis nas décadas de 1880 e 1890; a relação da maioria dos militantes socialistas com a “economia marxista” vem do volume 1 e, de modo mais realista, de panfletos populares como “Salários, Preços e Lucros”.) O capitalismo parecia estar se distanciando de uma fase “competitiva” ou de “laissez faire” para uma de cartéis, monopólios, imperialismo estatal, emergência de capital financeiro, corrida armamentista, conquista de terras coloniais: todos os elementos que Hilferding chamou de “capitalismo organizado” em 1910. A Primeira Guerra Mundial marcou a transição. A Revolução Russa demonstrou que, nas palavras de Lenin, “a revolução proletária se esconde atrás de cada greve”, algo que o período 1917-1921 pareceu muito próximo de confirmar. Então veio, após uma estabilidade efêmera, 1929, crise mundial, fascismo, stalinismo e a Segunda Guerra Mundial, seguidos por guerras incessantes de liberação nacional. Quem, em 1950, poderia negar que essa era a “época de declínio imperialista”? Esses fenômenos reais cimentaram toda uma visão de mundo, inicialmente codificada nos primeiros anos do Comintern: a continuidade com o marxismo vulgar kautskyniano do período pré-1914, a caracterização de um “capital monopolista” para a época, melhor expressado por Bukharin, as teorias de revolução permanente e desenvolvimento combinado e desigual de Trotsky, e a caracterização da época pelo Congresso como sendo de “decadência imperialista”. Isso era, ao menos, a expressão condensada daquela herança, tal como recapitulada nas melhores tentativas de fins dos anos 60 e princípios dos 70 de se reconectarem com o potencial revolucionário do corredor Alemão-Polonês-Russo de 1905 e 1917-1921. Essa periodização da história moderna permitiu que se visse o mundo “a partir de Moscou em 1920”, e isso, novamente, tornou a decomposição da história da Revolução Russa e do Comintern entre 1917 e 1928 tão central e, aparentemente, cheia de implicações. Nessa história estava a pedra filosofal, fosse ela trotskista, schachtmanitista ou ultraesquerdista. Essa era a visão

daqueles que, até meados dos anos 70, não tinham ilusões acerca da Social Democracia, stalinismo ou bonapartismo terceiro mundista, isto é, se opunham a eles do ponto de vista da democracia operária dos sovietes e dos conselhos de trabalhadores. Por um lado, essa parecia uma explicação perfeitamente coerente do mundo até meados dos anos 70. Não haviam sido a Alemanha e a Rússia o palco da mais alta expressão do movimento revolucionário dos trabalhadores? Não foi tudo desde então um pesadelo burocrático desastroso? Bordiga antecipou essa posição quando escreveu, em algum momento dos anos 50, que “apenas porque a evolução social de uma zona [usada por ele para designar a Europa e os EUA] se aproximou da última fase não significa que o que acontece no resto do planeta não é socialmente interessante”. Dessa perspectiva (compartilhada naquele período pelo autor), era precisamente o que estava acontecendo no resto do planeta que não era socialmente interessante. Quem poderia seriamente propor que a China, Coreia do Norte, Albânia, ou os movimentos de libertação nacional e seus estados, poderiam ser modelos para trabalhadores americanos ou europeus? Contudo, ainda que tal visão fosse correta, ela não era adequada.

POR QUE NÃO?

Porque ela ignorava duas realidades bem avançadas em meados da década de 1970: o duplo movimento de industrialização no Terceiro Mundo e o desenvolvimento de tecnologia intensiva (“high tech”) no setor mais avançado que estava prestes a decompor o movimento da classe trabalhadora ocidental, sobre o qual toda a perspectiva anterior se baseava. Em 1970, em meio à euforia stalinista, maoísta e terceiro-mundista acerca das revoluções burocrático-camponesas, era correto e revolucionário olhar para a classe trabalhadora ocidental como a única classe verdadeiramente capaz de efetivamente acabar com a sociedade de classes. Era necessário rejeitar os absurdos terceiro mundistas da época, assim como é necessário rejeitar seus (bem enfraquecidos) resquícios atualmente. O que mudou desde então é, evidentemente, que a desindustrialização no ocidente e a industrialização no Terceiro Mundo (dois lados da mesma moeda) criou verdadeiros movimentos de trabalhadores no próprio Terceiro Mundo, sendo a Coreia do Sul o mais importante exemplo recente. Até meados dos anos 70 o mundo se parecia bastante com o que se podia extrair da visão heroica da fase inicial do Comintern, descrita anteriormente. Os países que eram o centro da indústria mundial em 1914 (Europa ocidental, EUA e Japão) continuavam sendo o centro. Nos termos da discussão anterior, se um país não tivesse se “reorganizado internamente” até a década de 1860, ele não faria parte do “clube industrial” em 1914, e ainda não o seria em 1975. Além disso, a porcentagem de trabalhadores na manufatura nos países industrialmente avançados, que chegaram a 45% na Alemanha e Inglaterra no período 1900-1914, continuavam muito próximos daquele número na zona de capitalismo avançado como um todo em princípios dos anos 70. O que mudou nesse meio tempo? Evidentemente o mundo capitalista avançado havia passado por uma (brusca) transformação de sua força de trabalho; de 45% na indústria, 45% na agricultura e 10% no setor de serviços em 1900-1914 para 40- 45% na indústria, 5-10% na agricultura e 40-45% no setor de serviços (para não falar da criação de um grande setor armamentista que mal existia na virada do século). O que isso indicava? Indicava que a “história” do desenvolvimento do capitalismo se passou da seguinte maneira. Na fase do capitalismo “clássico” ou “competitivo” de 1815-1914, o sistema basicamente transformou camponeses em trabalhadores, ao menos na Inglaterra, EUA, França e Alemanha. No período após 1914 (na verdade começando em torno de 1890), a nova fase do capitalismo “organizado”, capitalismo “monopolista”, a época de “declínio imperialista” continuou a exaurir as populações rurais do mundo ocidental (bem como na América Latina, Caribe, sul da Europa e África), mas com que fim? Ao invés de continuar a expansão da força de trabalho industrial, a maior produtividade de uma porcentagem estagnada da força de trabalho foi utilizada para sustentar um crescente “setor de serviços” de colarinho branco (e produção de armas). Para voltarmos ao tema inicial, os Partidos Comunistas começaram a se desmanchar e ser superados por partidos sociais-democratas integrados justamente quando a população agrária do país em questão era reduzida a uma parcela trivial (5-10%) da força de trabalho. Isso é o que aconteceu, por exemplo, na França e na Espanha nos últimos 15 anos.

Isso não aconteceu em Portugal, precisamente porque um pequeno setor agrícola permanece sendo uma parte significativa da força de trabalho portuguesa. Esse é o pano de fundo da transformação do PCI. É o que aconteceu há muito tempo no norte da Europa e nos Estados Unidos. É, finalmente, o equivalente aos problemas encontrados na Europa oriental e na União Soviética quando a fase “extensiva” de acumulação se completou e passou-se à fase intensiva na qual chegou o ocidente com a crise de 1914-1945. Em suma, do absolutismo ilustrado do século XVII aos Partidos Comunistas do século XX, a problemática é a da fase extensiva de acumulação – a transformação dos camponeses em trabalhadores. A consequência principal disso é que uma sociedade só é completamente capitalista quando uma porcentagem trivial de sua força de trabalho é empregada na agricultura, isto é, que uma sociedade só é totalmente capitalista quando ela passou da fase extensiva/formal de acumulação para a intensiva/real. Isso quer dizer que nem a Europa ou os Estados Unidos em 1900 eram capitalistas como o movimento socialista pensavam que fossem, e que o os principais movimentos clássicos dos trabalhadores foram antes de tudo movimentos propulsores do capitalismo para sua fase intensiva.

Em suma, capitalismo quer dizer, antes de tudo, a revolução agrária.

A questão agrária teve diversos significados na história da esquerda internacional. Ela surgiu em conexão com as revoluções camponesas que acompanharam as revoluções francesa e russa; com a capitalização da agricultura no Sul dos EUA ao longo da Guerra Civil; com a crise agrária após 1873; com o esvaziamento dos campos europeus após a Segunda Guerra Mundial. Sem dúvidas, há fenômenos distintos que não devem ser simplesmente agrupados sem maiores cuidados. Mas foquemos no papel da acumulação intensiva em reduzir a força de trabalho agrícola para 5-10% da população como a definição de uma sociedade “completamente capitalista”. Uma agricultura totalmente capitalista é uma do tipo americano: mecanizada. A “questão agrária”, nesse sentido, não foi resolvida na França em 1789, mas sim em 1945-1973. A conexão entre agricultura e acumulação intensiva na indústria está na redução do custo dos alimentos como porcentagem do consumo dos trabalhadores, gerando o poder de compra de bens duráveis (tais como o automóvel) que está no centro da produção de massa do século XX.

Resumamos e retornemos, uma vez mais, para Bordiga e os neo-bordigistas. O marxismo vulgar era uma ideologia da intelligentsia da Europa Central e Oriental que estava ligada ao movimento dos trabalhadores em sua batalha para completar a revolução burguesa (o marxismo da Segunda e Terceira Internacionais). Suas semelhanças com o materialismo pré-kantiano, pré-1789, não é resultado de um “erro” (“eles tinham as ideias erradas”), mas sim uma explicação precisa do teor real do movimento que o havia gerado. Esse conteúdo faz sentido em um modelo de periodização da história do capitalismo que complemente a “época de decadência imperialista” de Lenin/Trotsky com os conceitos de dominação extensiva/formal e acumulação intensiva/real. Toda a teoria sobre um “capitalismo organizado” e um “capitalismo monopolista” de Lenin/Hilferding, incorporada pela Segunda Internacional, oculta, portanto, a transição do extensivo para o intensivo. A leitura do “marxismo oficial”, consequentemente, é a leitura de uma nascente elite estatal, dentro ou fora do poder, cujo movimento resulta em outra forma de capitalismo (dominação real) e o chama de “socialismo”. O que é atraente nessa análise é que ela evita o moralismo e oferece uma explicação “sociológica” para uma “epistemologia”. Novamente, ela implica que esse estrato social que sustentava um materialismo estilo Aufklaerung, o fazia por ser um serviço civil proto-estatal em um regime desenvolvimentista, e que sua economia, codificada na teoria leninista de imperialismo, era também a economia daquele estrato. Não é marxismo de verdade, pois tende a substituir as análises das relações e forças de produção por análises (em última instância duehringianianas) de “força”. De Lenin e Bukharin, passando por Baran e Sweezy, à Bettleheim, Amin e Pol Pot (reconhecendo grandes descontinuidades e degeneração, mas também certa continuidade), a teoria do “capital monopolista” é a teoria dos burocratas de estado. Ela é fundamentalmente anti-classe trabalhadora. Ela enxerga o reformismo da classe operária ocidental como uma expressão dos grandes lucros do imperialismo e obscurece a diferença de interesses entre uma elite burocrática de estado e as classes camponesas e operárias nos países subdesenvolvidos onde ela mantém o poder.

Os neo-bordigistas franceses, especialmente Camatte, demonstrou que foi na Rússia, acima de tudo, que o marxismo gradativamente passou de uma teoria da “comunidade material humana”, um movimento real que “nasce” no capitalismo maduro, para algo que é “construído” com um proto-capitalismo atrasado. Isso fica evidente na comparação entre a “posição marxista” desenvolvida por Marx a respeito da questão russa em 1878-1883 e a polêmica bolchevique com a última fase do Populismo na década de 1890. Seja lá o que Marx tenha pensado em seu estudo sobre a comuna russa como a base de um possível “salto” imediato para o comunismo, ele nunca teria escrito, como fez Trotsky em 1936, que “o socialismo agora confronta o capitalismo em toneladas de concreto e aço”. Isso não quer dizer que não há espaço para um discurso produtivista nos trabalhos de Marx; significa apenas que o abismo que separa Marx de todo o marxismo da Segunda, Terceira (e Quarta) Internacionais está justamente no fato de que ele está muito além do materialismo “pré-kantiano” e da teoria de “capital monopolista” que expressa a visão de mundo de um serviço civil de estado. No conflito entre Lenin e os Populistas na década de 1890, a batalha para introduzir o “marxismo” truncado da Segunda Internacional na Rússia, toda a dimensão pré-1883 da análise marxista acerca da “questão russa”, desenterrada por Bordiga, foi totalmente perdida em um coro produtivista. A afirmação linear e mecânica de “progresso” que está no centro do pensamento iluminista, transformado em uma teoria “etapista” da história pelo marxismo vulgar, não é sensível à comuna agrária russa tal como Marx o era. O telos Gemeinwesen (comunidade material humana) do comunismo é suprimido pelo produtivismo. Uma vez no poder, bolcheviques pegaram o esquema de reprodução e as categorias do Volume I de O Capital e os transformaram em manuais de planejamento econômico, sem perceber que essa era a descrição “ricardiana” do capitalismo que Marx critica no volume III. Isso abriu o caminho para a ideologia “metalúrgica” dos planejadores stalinistas após 1928. Há um mundo de distância entre Marx e a Segunda Internacional, e mais tarde os bolcheviques, presentes na “filosofia” e na “economia”, e essas diferenças expressam “epistemologias sociais” enraizadas nas visões de duas classes distintas, a classe trabalhadora e o serviço civil de estado. É nesse sentido que podemos dizer que o melhor da social-democracia alemã e do bolchevismo russo estão inevitavelmente entrelaçados com o estado. Uma renovação da visão revolucionária não pode mais se identificar como seus herdeiros diretos, mas como um desvio em que o marxismo se fundiu a um discurso estatista estranho àquele.

Nós no ocidente de hoje, diferentemente dos revolucionários de 1910, vivemos em um mundo totalmente capitalista. Não há mais capitalização da agricultura para ser alcançada, não há questão camponesa para o movimento operário. Ao mesmo tempo, em meio ao aprofundamento de uma crise econômica mundial de proporções semelhantes às de 1930, todas as antigas visões revolucionárias evaporaram, e uma ideia de como um mundo positivo além do capitalismo poderia ser está menos claro do que nunca (a história recente nos oferece muitos exemplos de alternativas negativas). Ainda assim, quando entendemos que boa parte do que está entrando em colapso atualmente é, no fim das contas, o legado do estado absolutista ilustrado e suas extensões modernas, nós podemos ver que muitas das ferramentas conceituais utilizadas até muito recentemente eram os instrumentos utilizados para completar a revolução burguesa, desenvolvidos por movimentos comandados, em última instância, por servidores civis de estado, reais ou em potencial. Ao libertarmos o marxismo desse legado estatista, nós podemos finalmente começar a entender o mundo a partir do ponto de vista do “movimento real que se desenrola diante de nossos olhos” (Manifesto Comunista).

Tradução: Leonardo Marques (leosantosmarques@gmail.com)

BIBLIOGRAFIA

1. B. Moore, Social Origins of Democracy and Dictatorship, (Boston 1966).

2. A. Ulan, The Unfinished Revolution, (New York, 1960).

3. A. Gershenkron. Economic Backwardness in Historical Perspective, (Boston, 1962).

4. E. Preobrazhensky, The New Economics, Oxford 1965, Ch. II. 5. Cf bibliographical notes above. 6. Ibid

7. O argumento tardio a respeito da conexão entre a questão agrária e o capitalismo está em A. Bordiga, Mai la merce…, 1979.

8. Cf Bilan dune revolution, Programme communista, Nos 40-41-42, Oct. 1967-June 1968, citado nas notas bibliográficas.

9. A evolução da previsão de Bordiga acerca de uma grande crise mundial em 1975 está em F. Livorst, op. cit. pp. 426-444.

10. Para uma discussão da crítica de Bukharin à Preobrazhensky, cf.Bilan d’une revolution, pp. 139-140. Contra os super-industralizadores da esquerda, Bukharin argumentou que a classe trabalhadora seria “obrigada a construir um aparato administrativo colossal… A tentativa de substituir todos os pequenos produtores e camponeses por burocratas produz um aparato tão imenso que seus custos de manutenção são incomparavelmente maiores que os gastos improdutivos resultantes das condições anárquicas da pequena produção: em suma, todo o aparato econômico do estado proletário não só não facilita, mas na verdade obstrui o desenvolvimento das forças produtivas. Ele leva diretamente ao oposto daquilo que ele pretende realizar (ibid). 11. O aspecto “bukharinista” da análise de Trotsky acerca da virada à esquerda do stalinismo após 1928 é observada em Bilan d’ une revolution, op. cit., p, 148. 12. Essa intervenção foi realizada no Sixth Enlarged Executive Committee Plenum do Comintern em 1926. ibid. p. 38.

13. Sobre a natureza capitalista do kolkhoz cf. Bilan d’ une revolution, pp. 172-179.

14. A noção de “revolução dual” desenvolvida por Bordiga está espalhada em seus escritos. Ver, por exemplo, A. Bordiga, Russie et revolution…p. 192 e ff. 15. V.I. Lenin, The Tax in Kind (The Significance of the New Policy and Its Conditions) em Collected Works, Vol. 32, pp. 3 29-369 apresenta a análise de Lenin sobre a relação entre o capitalismo de pequenos produtores e o capitalismo de estado em 1921.

16. As formulações mais líricas de Trotsky sobre o crescimento das forças produtivas no “estado operário” de Trotsky estão em A Revolução Traída (1936).

17. Essa é uma formulação de Bilan d’ une revolution, p. 95.

18. Citado em Grilli, op. cit., p. 282.

19. Trotsky, The Revolution Betrayed, (New York, 1972), p. 8.

20. Cf Schachtman, Max. The Bureaucratic Revolution (New York 1962) para o melhor exemplo dessa visão.

21. Cf Bordiga, Russie et revolution dans la theorie marxiste, pp. 226-297, para uma discussão da evolução do pensamento de Marx sobre a comuna russa e a perda de sua “chance histórica” de pular a fase capitalista.

22. Sobre o profundo envolvimento de Marx com a agricultura russa durante a última década de sua vida, cf. Teodor Shanin’s essay “Late Marx” in T.Shanin, ed. ” Late Marx and the Russian Road”, New York 1983. Ver também J. Camatte, “Bordiga et la revolution russe…”,pp. 15-23.

23. A carta de Marx de novembro de 1877 foi publicada em alemão em Maximilien Rubel, ed. “Marx-Engels: Die russische Kommune” (1972), pp. 49-53. (our translation

in text).

24. Cf. nota 22.

25. As análises do fascismo italiano em 1921-24 pela facção de Bordiga, certamente escritas em parte pelo próprio, estão disponíveis em “Communisme et fascisme”, (Ed. Programme communists, 1970).

26. Como disse Marx no Manifesto, o comunismo não é um ideal a ser realizado; ele é, pelo contrário, “nada além do movimento real que se desenrola diante de nossos olhos”. Para uma discussão do comunismo como “movimento real”, cf. Jean Barrot, “Le mouvenent communiste”, (Ed. Champ Libre, 1972).

27. Para uma crítica do formalismo que surge da visão que resume o socialismo como um problema de “formas de organização”, cf. O ensaio de Jean Barrot “Contribution a la critique de l’ideologie ultra-gauche (Leninisme et ultragauche), em seu Communisme et question russe (Ed. de la Tete de Feuilles, 1972), pp. 139-178.

28. Isso é elaborado por L. Grilli, op. cit. p. 38.

29. Outro exemplo semelhante na própria Rússia era a “taxa Lenin”, quando o partido foi inundado com membros maleáveis, inexperientes ou, simplesmente, carreiristas, facilmente manipuláveis pelos stalinistas contra os remanescentes da Velha Guarda. Os equivalentes internacionais dessa transformação da Internacional Comunista foram figuras como Cachin no PCF ou Thaelman no KPD.

30. Sobre o crescimento dos NIC e seu impacto na ideologia ao redor do mundo, cf. Nigel Harris, “The End of the Third World”, (London 1986).

31. Sobre a capitalização da agricultura britânica, cf. Robert Brenner, “The Agrarian Origins of European Capitalism” em T.H. Ashton and C.H.E. Philpin, “The Brenner Debate”, (Cambridge UP, 1985), pp. 213-327.

32. Sobre a tradição mercantil e seu impacto, cf. Roman Szporluk, “Communism and Nationalism: Karl Marx vs. Friedrich List”, (Oxford UP1988).

33. Para uma discussão do impacto pós-1873 na crise agrária cf. Hans Rosenberg, “Grosse Depression und Bismarckzeit”, Berlin 1967.

34. O ultraesquerdista Herman Gorter, de modo confuso porém correto, apontou já em 1921 para a ausência de uma questão agrária para trabalhadores ocidentais como a essência da diferença entre a revolução Russa e qualquer revolução possível no Ocidente, uma diferença minimizada por Lenin em Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo. Cf. H. Gorter, Offener Brief an den Genossen Lenin, Berlin 1921.

35. Raya Dunayevskaya, “Philosophy and Revolution”, (New York 1975), Ch. 3.

36. O “Sexto Capítulo não-Publicado” é o apêndice da tradução inglesa do Capital, Vol I (New York 1976), publicado pela Penguin.

37. Cf. o panfleto do grupo francês Negation, “Lip and the Self-Managed Counter-Revolution” (English trans. by Black and Red, Detroit, 1975).

38. Rita di Leo, I operaie e il sistema sovetico (Bari 1970), Ch. 1, oferece uma boa discussão da utilização soviética do primeiro volume de O Capital como um manual do qual as categorias do processo de planejamento foram retiradas.