Tradução: José Carlos Mendonça

 

REFERENCIA:

GOLDNER, Loren. Notes Towards a Critique of Maoism. Insurgent Notes N. 7, October 2012.

Disponível em: http://insurgentnotes.com/2012/10/notes-towards-a-critique-of-maoism/ Acesso em: 2 mai 2014.

Cotejada com a versão disponível em: http://bthp23.com/Maoism.pdf Acesso em: 2 mai 2014.

 

Nota ao leitor: O texto abaixo foi escrito a pedido de um camarada da costa oeste depois que ele participou em agosto de 2012 da conferência “Tudo para Todos” em Seattle, na qual muitos membros da atual corrente “maoista soft” Kasama estavam presentes. Trata-se de uma história resumida do maoísmo que não apresenta o ponto de vista completo da “esquerda comunista”, deixando de fora, por exemplo, os acirrados debates sobre as possibilidades de aliança com a “burguesia nacionalista” no mundo colonial e semicolonial nos três primeiros congressos da Internacional Comunista. Foi escrito principalmente para fornecer um contexto histórico-critico sobre o maoísmo para uma jovem geração de militantes para que possam descobri-lo. – L. G.

 

O Maoísmo foi parte de um movimento mais amplo no século XX que poderia ser chamado de “revoluções burguesas com bandeiras vermelhas”, como no Vietnã ou Coréia do Norte.

Para entender isso, é importante perceber que o maoísmo foi um importante resultado da derrota da onda revolucionária mundial em 30 países (incluindo a própria China), que ocorreu nos anos após a Primeira Guerra Mundial. A maior derrota foi na Alemanha (1918-1921), seguida da derrota da Revolução Russa (1921 em diante), culminando com o stalinismo.

O Maoísmo é uma variante do stalinismo. [1]

A primeira fase desta derrota, onde Mao e China estão em causa, teve lugar nos anos de 1925-1927, durante o qual o pequeno proletariado chines, mas muito estrategicamente localizado, estava muito radicalizado em uma onda de greves. Esta derrota encerrou o ciclo 1917-1927 da Primeira Guerra Mundial pós-lutas operárias, que incluiu (além de Alemanha e Rússia) greves de massas na Grã-Bretanha, conselhos operários no norte da Itália, grande efervescência e greves na Espanha, os “motins do arroz” no Japão, uma greve geral em Seattle, e muitos outros confrontos.

Em 1925-1927, Stalin controlava a Terceira Internacional Comunista (Comintern). Desde o início da década de 1920, os conselheiros russos trabalharam em estreita colaboração com o nacionalista Kuomintang (KMT) do revolucionário burguês Sun Yat-sen (líder da derrubada da Dinastia Manchu em 1911) e com o pequeno, mas importante, Partido Comunista Chinês (PCC), fundado em 1921.

A Terceira Internacional prestou ajuda política e militar para o KMT, que foi assumido por Chiang Kai-shek (futuro ditador de Taiwan depois de 1949). O Comintern no início e meados da década de 1920 viu o KMT como uma força “progressista antimperialista”. Muitos comunistas chineses realmente se juntaram ao KMT nestes anos, alguns clandestinamente outros abertamente.

A política externa soviética, em meados da década de 1920 envolveu uma luta interna entre as facções de Stalin e Trotsky. A política de Trotsky (quaisquer que sejam suas falhas, e foram muitas, inclusive ter prestado pouca atenção à crise chinesa até que fosse tarde demais) apontou para a revolução mundial como única solução para o isolamento da União Soviética. Stalin respondeu com o slogan “socialismo num só país” uma aberração inédita até então na internacionalista tradição marxista. Stalin nesse período se aliou com o líder da oposição de direita Nikolai Bukharin contra Trotsky. A política soviética e da III Internacional refletiu essa aliança em um “giro à direita” para um forte apoio ao nacionalismo burguês no exterior. O próprio Chiang Kai-shek era um membro honorário do Comitê Executivo da III Internacional neste período. A Terceira Internacional defendeu um forte apoio ao KMT de Chiang em sua campanha contra os “senhores da guerra” intimamente ligados à nobreza latifundiária.

É importante entender que, nestes mesmos anos, Mao Tsé-tung (que ainda não era o principal líder do partido) criticou esta política pela direita, defendendo uma aliança mais estreita entre PCC e KMT. [2]

Na primavera de 1927, Chiang Kai-shek se voltou contra o PCC e o proletariado radicalizado, massacrando milhares de trabalhadores e militantes do PCC em Xangai e Cantão (agora conhecido no Ocidente por seu nome real chinês Guangzhou), que tinha sido completamente desarmado pelo apoio do Comintern ao KMT. [3] Este massacre rompeu as relações do PCC com o proletariado chinês e abriu o caminho para Mao ascender à liderança no início dos anos 1930.

A próxima fase do PCC foi o chamado “Terceiro Período” do Comintern, lançado, em parte, em resposta ao desastre na China. Na União Soviética, Stalin se voltou contra a “direita” bukharinista (na realidade não houve ninguém mais reacionário que Stalin), depois de ter liquidado a esquerda trotskista.[4] O Terceiro Período, que durou de 1928 até 1934, foi um período de aventureirismo de “ultra-esquerda” ao redor do mundo. Na China, bem como em vários outros países coloniais e semicoloniais, o terceiro período envolveu o slogan de “soviets em todos os lugares”. Não é um mau slogan em si, mas sua implementação prática voluntarista, resultou em uma série de desastrosas revoltas isoladas na China e no Vietnã em 1930 que, por estarem totalmente fora de sincronia com as condições locais, levou a sangrentas derrotas por todos os lugares.

Foi na recuperação destas derrotas que Mao tornou-se o principal líder do PCC, e começou a “Longa Marcha” para Yan’an (no remoto noroeste da China), que se tornou um mito maoísta central e reorientou o PCC ao campesinato chinês, uma classe social muito mais numerosa, mas não revolucionária em termos marxistas [5] (embora possa ser um aliado da revolução proletária, como na Rússia durante a Guerra Civil de 1917-1921).

O Japão invadiu a Manchúria (nordeste da China) em 1931 e o PCC, desde então até a derrota japonesa no final da Segunda Guerra Mundial, foi envolvido em uma luta a três com o KMT e os japoneses.

Depois que a política do “Terceiro Período” levou ao triunfo de Hitler na Alemanha (onde o Partido Comunista atacou os sociais-democratas – “sociais fascistas” – como “inimigo principal” e não os nazistas, e até trabalhou com os nazis contra sociais-democratas em greves), o Comintern, em 1935, mudou sua linha novamente para a “Frente Popular”, o que significou alianças com forças “burguesas democráticas” contra o fascismo. Em todo o mundo colonial e semicolonial, os partidos comunistas abandonaram completamente sua luta anticolonial anterior e lançaram-se em apoio às democracias burguesas ocidentais. No Vietnã e na Argélia, por exemplo, apoiaram o poder colonial francês “democrático”. Na Espanha, apoiaram acriticamente a República na Revolução e na Guerra Civil Espanhola, durante as quais ajudaram a República a esmagar os anarquistas (que tinham dois milhões de membros), o partido independente de esquerda POUM (Partido Obrero de Unificacion Marxista, partido “centrista” denunciado naquele tempo como “trotskista”) e os próprios trotskistas. Estas últimas forças tinham tomado as fábricas no nordeste da Espanha e estabelecido comunas agrárias na zona rural. A República e os comunistas esmagaram todos eles e depois perderam a Guerra Civil para Franco. O principal objetivo soviético na Espanha era provar sua nova respeitabilidade depois de formar uma aliança anti-Hitler com a França em 1935.

Na China a Frente Popular significava, para o PCC, apoiar Chiang Kai-shek (que, cabe recordar, havia massacrado milhares de trabalhadores oito anos antes) contra o Japão.

No refúgio de Yan’an do PCC, naqueles anos e durante a Segunda Guerra Mundial, Mao consolidou seu controle sobre o partido. Kang Sheng, seu notório homem de confiança, ajudou a extirpar qualquer oposição ou potenciais rivais com calúnias, julgamentos de fachada e execuções. Um caso marcante foi o de Wang Shiwei. Ele era um comunista comprometido e tinha traduzido partes de O Capital de Marx para o chinês. Mao e Kang resolveram quebrá-lo e, por meio de vários julgamentos de fachada, excuí-lo do partido. (Ele finalmente foi executado quando o PCC deixou Yan’an em 1947, na última fase da guerra civil contra Chiang Kai-shek).

O exército camponês de Mao conquistou toda a China em 1949. O proletariado chinês, que havia sido a base do partido até 1927, não teve absolutamente papel algum nessa suposta “revolução socialista”. O outrora “nacionalista progressista” Kuomintang foi totalmente desacreditado quando se tornou o partido dos latifundiários, cheio de corrupção, responsável pela inflação galopante, e comandado por oficiais mais interessados em enriquecer do que em lutar, seja contra os japoneses (antes de 1945), seja contra o PCC.

A primeira fase do governo de Mao foi de 1949 a 1957. Ele não fez nenhum segredo do fato de que o novo regime se baseava no “bloco de quatro classes” para efetuar uma revolução nacionalista burguesa. Fundamentalmente era o programa do nacionalista burguês Sun Yat-Sen de 25 anos antes. A corrupta aristocracia latifundiária foi expropriada e eliminada.

Mas é importante lembrar que “terra aos camponeses” e expropriar proprietários de terras pré-capitalistas são a revolução burguesa, como têm sido desde a Revolução Francesa de 1789. Por essa razão o regime foi genuinamente popular e muitos chineses no exterior que não eram comunistas voltaram para ajudar a reconstruir o país. Alguns “capitalistas progressistas” foram mantidos para continuarem a administrar suas fábricas. Após o caos dos últimos 30 anos, essa estabilização foi uma lufada de ar fresco. O Exército Popular de Libertação também interveio na Guerra da Coréia para ajudar Kim Il-sung a combater os Estados Unidos e as forças das Nações Unidas. Mas também é importante não perder de vista o fato de que a Guerra da Coreia foi parte de uma guerra entre os dois blocos da Guerra Fria, e que o que Kim implantou na Coréia do Norte a partir de 1953 foi outra “revolução burguesa com bandeiras vermelhas” stalinista baseada em terra aos camponeses (A Coreia do Norte se tornou a primeira monarquia hereditária proletária, agora na terceira encarnação).

Também temos que ver a Revolução Chinesa no contexto internacional. O stalinismo (e o maoísmo é, como mencionado anteriormente, uma variante do stalinismo) emergiu da Segunda Guerra Mundial mais forte que nunca, tendo se apropriado de toda a Europa Oriental, vencendo na China, em seu caminho ao poder na Coréia (Norte) e no Vietnã, e teve enorme prestígio nas lutas em todo o mundo colonial e semicolonial (renomeado para Terceiro Mundo, pois a Guerra Fria dividiu o mundo em dois blocos antagônicos centrados sobre os EUA e a União Soviética).

Não há dúvida que Mao e o PCC foram um tanto independentes de Stalin e da União Soviética. Eles foram um tipo próprio de stalinistas. E também estavam muito distantes do poder dos soviets e conselhos de trabalhadores que inicialmente caracterizaram as revoluções russa e alemã, bases nas quais o Comintern foi originalmente fundado em 1919. Essa é uma questão espinhosa e muito complexa para ser elucidada aqui. Mas de 1949 até a cisão sino-soviética em 1960, a União Soviética enviou milhares de técnicos e consultores para a China e treinou milhares de quadros chineses em universidades e institutos soviéticos, como ocorreu desde a década de 1920. O “modelo” estabelecido no poder na década de 1950 era essencialmente o modelo soviético, adaptado para um país com uma maioria camponesa ainda mais esmagadora do que foi na Rússia.

O stalinismo mundial foi abalado em 1956 por uma série de acontecimentos: a Revolução Húngara, na qual o proletariado novamente estabeleceu conselhos proletários antes de ser esmagado pela intervenção russa; o “Outubro” polonês, em que uma revolta dos trabalhadores levou ao poder uma liderança stalinista “reformada”. Estes levantes foram precedidos pelo discurso de Khruschev para o 20º Congresso do Partido Comunista da URSS, em que ele revelou muitos dos crimes de Stalin, incluindo o massacre de 5 a 10 milhões de camponeses durante as coletivizações do início dos anos 1930. Muitos crimes ele não mencionou, pois estava muito envolvido neles, e o propósito de seu discurso foi salvar a burocracia stalinista negando o próprio Stalin. Este foi o início da “coexistência pacífica” entre o bloco soviético e o Ocidente, mas as revelações dos crimes de Stalin e as revoltas dos trabalhadores na Europa Oriental (na sequência da revolta dos trabalhadores na Alemanha Oriental em 1953) foram o começo do fim do mito stalinista. Militantes amargamente desiludidos de todo o mundo saíram de partidos comunistas, depois de descobrirem que haviam dedicado décadas de suas vidas a uma mentira.

O discurso de Khruschev em 1956 muitas vezes é mencionado por posteriores maoístas como o triunfo do “revisionismo” na União Soviética. A palavra “revisionismo” é em si mesma de uma ideologia sem limites, uma vez que a principal coisa que estava a ser “revista” era o terror stalinista, que os maoistas e os marxistas-leninistas, implicitamente, consideram ser a “ditadura do proletariado”. Em 1956 havia entre 10 a 20 milhões de pessoas nos campos de trabalhos forçados na União Soviética, e, presumivelmente, a sua libertação (para aqueles que sobreviveram a anos de trabalho escravo, muitas vezes no Círculo Polar Ártico) era parte do “revisionismo”. Para os maoístas, o discurso de Khruschev é também muitas vezes identificado com a “restauração do capitalismo”, mostrando o quão superficial é o seu “marxismo”, ao considerar a existência do capitalismo baseada não em qualquer análise das relações sociais reais, mas na ideologia deste ou daquele líder.

O discurso de Khruschev não foi bem recebido por Mao e pelos líderes do PCC, cujo próprio controle do governo da China estava se tornando cada vez mais impopular.[6] Assim, o regime lançou uma nova fase, chamada de campanha das “Cem Flores”, na qual os “intelectuais burgueses” que haviam se unido ao regime, recuando da brutalidade do KMT, foram convidados a “deixar uma centena de flores desabrocharem” e abertamente expressar suas críticas.

A quantidade de críticas foi de um volume tão inesperado que a campanha das “Cem Flores” foi rapidamente encerrada por Mao e o PCC, que começaram a caracterizá-la como “tirar as cobras de seus buracos”, a fim de “esmagá-las” de uma vez por todas. Muitos críticos foram presos e enviados para campos de trabalho forçado.

Contudo, o maoísmo começou a se tornar uma tendência internacional, tornando-se atrativo para algumas pessoas que deixaram os partidos comunistas pró-soviéticos após o discurso de Khrushchev. Este foi o núcleo duro de uma minoria ultra-stalinista (que sentiu, por exemplo, que o PC do seu próprio país não apoiou com força suficiente a invasão soviética para esmagar a Revolução Húngara). Até o início de 1960, nos EUA, Europa e por todo o Terceiro Mundo, essas correntes se tornariam os partidos “marxistas-leninistas” alinhados com a China, contra os Estados Unidos e o “social-imperialismo” Soviético.

Na própria China, o regime necessitava mudar o rumo após o desastre do período das “Cem Flores”. Houve tensão crescente na cúpula do PCC entre Mao e os tecno-burocratas de influência soviética, que estavam focados na construção da indústria pesada. Esta era a situação das facções que levou à “Revolução Cultural” que eclodiu em 1965.

Assim, em 1958, Mao lançou o país no chamado “Grande salto para frente” que deveria substituir a indústria pesada ao estilo soviético por camponeses engajados na pequena produção industrial de “fundo de quintal” em todos os lugares. Os camponeses foram forçados a ingressar nas “comunas populares” e começaram a trabalhar para se equipararem ao nível econômico do Ocidente capitalista dentro de 10 a 15 anos. Em todos os lugares potes, panelas e utensílios, bem como heranças de família foram derretidas em pequenos fornos no quintal para produzir aço, a exaustivos ritmos de trabalho. O resultado foi uma enorme fuga do trabalho camponês do cultivo de plantações, causando fome em 1960-1961 período no qual se estima que entre 10 a 20 milhões de pessoas morreram de fome. [7]

A derrocada do “Grande salto para frente” também foi um golpe terrível para a posição de Mao dentro do PCC. Ela representava uma forma extrema de um tipo de voluntarismo – em detrimento das condições materiais reais – que sempre caracterizou o pensamento de Mao, resumido em sua famosa frase “pintar retratos na página em branco do povo” (alguns marxistas!).[8] Os tecnocratas influenciados pela linha soviética em torno de Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, basicamente elevaram Mao à condição de uma liderança simbólica e figurativa, muito importante para ser expurgada definitivamente, mas despojada de todo poder real. Assim, as linhas de batalha foram traçadas para o que se tornou, anos mais tarde, a “Revolução Cultural”.

A “Revolução Cultural” foi uma tentativa de Mao retornar. [9] Uma luta de facções na cúpula do PCC em que milhões de universitários e estudantes do ensino médio foram mobilizados em todos os lugares para atacar o “revisionismo” e trazer Mao de volta ao poder real. Mas essa luta de facções e a marginalização anterior de Mao que estava por trás dela, quase não foram anunciadas como a verdadeira razão para este processo, em que dezenas de milhares de pessoas foram mortas e milhões de vidas foram destruídas.[10] A China foi lançada no frenesi ideológico em uma escala indubitavelmente maior do que sob Stalin no auge de seu poder. Milhões de pessoas com educação formal – incluindo técnicos e cientistas – foram suspeitas de “revisionismo” ou apenas vítimas de alguma disputa pessoal, e foram enviadas para a zona rural para “aprender com os camponeses”, que na realidade os envolveu em devastador trabalho forçado onde muitos trabalharam até a morte. “A política estava no comando” com ideólogos do partido, e não cirurgiões, encarregados de operações médicas em hospitais chineses, com consequências previsíveis. Entre 1966 e 1969 escolas foram fechadas nas cidades, embora nenhuma na zona rural, enquanto jovens de universidades e escolas de ensino médio corriam pelo país humilhando e às vezes matando pessoas designadas pela facção maoísta como “revisionista” e “seguidor da via capitalista de Liu Shaoqi” (o próprio Liu Shaoqi morreu de doença na prisão). A economia foi destruída. Em 1978, quando Deng Xiaoping (que também realizou trabalho rural duro durante esses anos) voltou ao poder, a produção agrícola chinêsa per capita não era maior do que tinha sido em 1949.

Em tal situação, onde o governo revisionista deveria ser substituído pelo “poder do povo”, as coisas fugiram do controle quando algumas correntes tomaram o slogan de Mao “É justo se rebelar” e o levaram um pouco longe demais, questionando integralmente a natureza do governo do PCC desde 1949. Nestes casos, como na “Comuna de Shanghai” no início de 1967, o Exército de Libertação Popular (ELP) teve que intervir contra uma formação independente que incluía proletários radicalizados. O ELP foi de fato um dos principais “vencedores” da Revolução Cultural, por seu papel nas eliminações frequentes, tornando-o uma terceira força tanto contra os “seguidores da via capitalista” quanto contra os maoístas. (Durante tudo isso, Kang Sheng, o homem de confiança de Yan’an, voltou ao poder e ajudou a vilipendiar, expulsar e às vezes executar opositores faccionais de Mao, como tinha feito na primeira vez).

Talvez o caso mais interessante de como as coisas foram “longe demais”, junto com a breve Comuna de Shanghai antes de ser massacrada pelo exército, foi a corrente Shengwulian em Hunan, a própria província de Mao. Lá, proletários e estudantes que passaram por todo o processo produziram uma série de documentos que se tornaram famosos em toda a China, analisaram o país como estando sob controle de uma “nova classe dominante burocrática”. Enquanto os militantes de Shengwulian disfarçaram seu ponto de vista por meio de ligações com o “pensamento de Mao Tsetung” e o “marxismo-leninismo”, seus textos foram lidos em toda a China e na cúpula do próprio partido, onde foram claramente reconhecidos por aquilo que eram: um desafio fundamental para ambas as facções no poder e foram impiedosamente esmagados. [11]

Críticas interessantes surgidas durante os anos da Revolução Cultural foram escritas por Yu Luoke, à época um trabalhador aprendiz; e, mais tarde, o manifesto de Wei Jingsheng, um eletricista de 28 anos do Jardim Zoológico de Pequim, sobre a “Democracia da Parede” [12] em Pequim em 1978. [13] O texto de Yu, como os de Shengwulian, foi lido e difundido por toda a China. Criticava a definição de “classe” adotada pela Revolução Cultural a partir de critérios de “linhagem de sangue” fundados em antecedentes familiares e de confiabilidade política, ao invés de sua relação com os meios de produção. Yu foi executado por seus problemas em 1970. A Democracia da Parede, que deveria acompanhar o retorno de Deng Xiaoping ao poder, também ficou fora de controle e foi suprimida em 1979.

A facção de Mao ressurgiu triunfante em 1969. Isto incluiu sua esposa, Jiang Qing, e outros três correligionários que foram presos e depostos como a “Gangue dos Quatro” [14] logo após a morte de Mao, em 1976. [15] Esta vitória, muitas vezes esquecida, coincidiu com o início do silencioso giro de Mao para os EUA como contrapeso à URSS. Em 1969, houve combate ativo, mas localizado, entre forças chinesas e soviéticas ao longo da fronteira comum. Como resultado Mao proibiu todo trânsito de material de apoio soviético para o Vietnã do Norte e aos Vietcongs no Vietnã do Sul, proibição que permaneceu em vigor até o fim da Guerra do Vietnã em 1975. No início de 1972, Mao recebeu em Pequim o presidente Nixon enquanto os EUA lançavam bombas sobre o Vietnã do Norte.

Por sua vez, este não foi o primeiro caso de política externa conservadora, em detrimento de movimentos e países fora da China. Já em 1965, o regime chinês – baseado em seu prestígio como centro de oposição “marxista-leninista” ao “revisionismo” soviético após a cisão sino-soviética – incentivou o poderoso Partido Comunista Indonésio (PKI) a uma estreita aliança com Sukarno, líder populista-nacionalista da Indonésia. Foi uma repetição exata da aliança do PCC com Chiang Kai-shek em 1927 e terminou da mesma forma: um banho de sangue em que 600.000 membros do PKI e simpatizantes foram mortos no outono de 1965, em um golpe militar planejado com a ajuda de consultores e acadêmicos dos EUA. Pequim nada disse sobre o massacre até 1967 (quando se queixou que a embaixada chinesa em Jakarta foi apedrejada durante os acontecimentos). Em 1971, a China também aplaudiu abertamente a sangrenta repressão ao movimento estudantil de orientação trotskista no Ceilão (atual Sri Lanka). No mesmo ano, apoiou (juntamente com os EUA e contra a Índia, aliada da URSS) o ditador paquistanês Yahya Khan, que dirigiu a repressão massiva em Bangladesh quando aquele país, anteriormente parte do Paquistão, declarou independência.

Em 1971, ocorreu outra bizarra guinada na política doméstica, ecoando o fascínio de Mao pelas antigas intrigas palacianas das cortes dinásticas. Até esse momento, Lin Biao tinha sido abertamente designado como sucessor de Mao. A imprensa maoísta no exterior, bem como a intelectualidade francesa (na época decididamente pró-maoísta) alardeou a mesma linha. De repente, Lin Biao desapareceu da cena pública, e, no final de 1971, soube-se que também ele, supostamente um próximo confidente de Mao durante anos, tinha sido um seguidor da via capitalista e agente disfarçado do KMT o tempo todo. De acordo com a história oficial, Lin tinha comandado um avião militar e voado em direção à fronteira soviética; o avião caiu na Mongólia, matando-o e todos a bordo.[16] Durante meses, os maoístas ocidentais denunciaram esta explicação publicada na imprensa mundial como pura invenção burguesa, incluindo o que Simon Leys caracterizou como “jornal diário pró-maoísta mais importante no Ocidente”, o altamene prestigiado Le Monde (Paris), cujo correspondente em Pequim era um maoista devoto. Assim, quando o próprio governo chinês confirmou a história, os maoístas ocidentais se transformaram num instante e uivaram como lobos contra Lin Biao. Simon Leys observou que esses crentes fervorosos transformaram o velho provérbio chinês “Não bata em um cão depois dele ter caído na água” em “Não bata em um cão até que ele tenha caído na água”.

Este foi apenas o começo da bizarra virada de estratégia do mundo maoísta e da política externa chinesa. O “inimigo principal” e “maior perigo” deixou de ser o imperialismo mundial centrado nos EUA, mas o “social-imperialismo” Soviético. Assim, quando, com o apoio dos EUA, Augusto Pinochet derrubou o governo de Salvador Allende no Chile, em 1973, a China reconheceu imediatamente Pinochet e elogiou o golpe. Em 1975, quando as tropas do regime sul africano do Apartheid invadiram Angola após a independência sob a direção do MPLA pró-soviético, a China apoiou a África do Sul. Durante a Revolução Portuguesa de 1974-1975, as forças maoístas estenderam a mão para a extrema direita. Correntes maoístas em toda a Europa Ocidental reivindicaram o fortalecimento da OTAN contra a ameaça soviética. A China apoiou o ditador das Filipinas, Ferdinand Marcos, na tentativa de esmagar movimentos guerrilheiros maoístas naquele país.

O maoísmo teve certo impacto sobre as forças da Nova Esquerda no Ocidente no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Desvendar as diferenças entre os vários grupos nos levaria muito longe e a maioria deles tinha desaparecido pela década de 1980. Mas o “maoismo”, interpretado de diferentes maneiras, foi importante na Alemanha, Itália, França e EUA. Alguns grupos, como o ultra-stalinista Progressive Labor Party (PLP) nos EUA, previu os acontecimentos já em 1969 e rompeu com a China nesse ano. A maioria desses grupos se caracterizaram pela selvageria stalinista contra adversários, e, ocasionalmente, entre si.[17] Sua influência foi tão difusa quanto perniciosa. Em 1975, havia centenas de grupos de estudo “marxista-leninistas” pelos EUA, e centenas de quadros entraram nas fábricas para organizar o proletariado. Em meados da década de 1970, os três principais grupos maoístas emergiram como dominantes na esquerda estadunidense: Revolutionary Union (RU), sob direção de Bob Avakian (mais tarde renomeada RCP); October League (OL), sob a direção de Mike Klonsky, e o Communist Labor Party (CLP). Além disso, existiu uma influência mais ampla e difusa do maoísmo em círculos da nova esquerda e no movimento de libertação negra. Para entender de fato algumas das diferenças entre os diferentes grupos maoístas, seria necessário conhecer a relação deles com o velho PC “revisionista” dos EUA. Grupos mais moderados, como OL, remontavam à liderança de Earl Browder, durante os anos da Frente Popular. Grupos mais linha-dura, como CLP, buscavam o mais abertamente stalinista William Z. Foster. Estes e outros grupos menores travaram batalhas ideológicas sobre a atitude correta a tomar quanto a Enver Hoxha na Albânia, que para alguns (depois da guinada da China pró-EUA) permaneceu, para eles, o único país verdadeiramente “marxista-leninista” no mundo. Um pequeno grupo alardeou a tese dos “três terceiros”: Terceira Internacional / Terceiro Período / Terceiro Mundo.

Na Alemanha a Nova Esquerda Maoísta estava em ascensão após 1968, um processo que foi cautelosamente denominado “superação positiva do movimento antiautoritário” daquele ano. A principal corrente foi o KPD (Kommunistische Partei Deutschlands), que lutou contra o muito maior DKP (Deutsche Kommunistische Partei, o partido pró-soviético, que mal atingia 1% dos votos nas eleições alemãs). Fora do KPD havia uma multidão de pequenos “K-Gruppen”, com nomes poéticos como KPD-ML Rote Heimat (Pátria Vermelha com distintos matizes populistas de “solo”). Somente o DKP teve alguma influência no proletariado, por meio de sua infiltração nos sindicatos. Entretanto, em 1972 o governo social-democrata de Willy Brandt publicou o “decreto radical” e reduziu fortemente tanto o DKP quanto os K-Gruppen.

Na Itália, o Partido Comunista Italiano (PCI), com 25% dos votos nas eleições de 1976 e trabalhando duramente para chegar a um “compromisso histórico” com os democrata-cristãos, recuou, enquanto o governo italiano criminalizou toda a extrema-esquerda, incluindo os maoístas, como “terroristas”. Em sua caminhada para assinar o “compromisso histórico” – que teria permitido integrar com os democrata-cristãos uma ampla coalizão de governo – o PCI ajudou ativamente o governo na supressão da extrema-esquerda após o sequestro e execução de Aldo Moro, político de direita, pelas Brigadas Vermelhas na Primavera de 1978.

Na França, o maoísmo nunca teve a influência dos maiores partidos trotskistas (Lutte Ouvriere-LO, Ligue Communiste Revolutionaire-LCR e Organisation Communiste Internationaliste-OCI, todos três ativos ainda hoje, embora nos dois últimos casos com nomes diferentes). A maioria dos grupos Maoista “Marxista-Leninista” caíram em descrédito pela sua atuação manipuladora durante a greve geral de maio-junho de 1968, tal como aconteceu quando se marchou para as barricadas na noite do mais sério confronto de rua que colocou milhares de pessoas contra milhares de policiais, eles anunciaram que tudo não passava de uma provocação do governo e pediram que todos fossem para casa, como eles mesmos fizeram. Mas na primavera de 1970, um pequeno grupo maoísta ultrastalinista e ultramilitante, o Gauche Proletarienne – GP (Esquerda Proletária), momentaneamente recrutou Jean-Paul Sartre em sua defesa, quando o governo o proibiu, na sequência de algumas intervenções militantes espetaculares por todo o país. Sartre que foi, ao longo dos 20 anos anteriores, sucessivamente pró-soviético, pró-Cuba e depois pro-China, salvou GP da extinção, mas entrou em colapso de seu próprio frenesi ideológico pouco depois. (Isto notadamente produziu dois ideólogos neoliberais particularmente cretinos após 1977, Bernard-Henry Levi e André Glucksmann, bem como Serge July, editor-chefe do agora muito respeitável diário Liberation, que começou como jornal do GP). Ex-maoístas franceses apareceram nos lugares mais estranhos, como Roland Castro, um maoísta controverso em 1968 que se tornou íntimo do presidente socialista François Mitterand e foi nomeado para um cargo de liderança tecnocrática durante a presidência deste último.

Deve-se fazer certa exceção ao chamado “Anarco-Maoísmo”, formado por uma base de jovens proletários revoltados, imaginando que o maoísmo da “Revolução Cultural” seria uma doutrina “libertária”, que lançou ações militantes pela França alguns anos depois de 1968.

Na Grã-Bretanha o maoísmo voltou a ter quase nenhuma influência, enquanto as organizações trotskistas Socialist Labor League – SLL (Liga Socialista do Trabalho) e IS (mais tarde SWP – Socialist Workers Party / Partido Socialista dos Trabalhadores) em seu auge nos anos 1970 possuiam milhares de membros e séria presença no proletariado.

Finalmente no Japão, país capitalista mais avançado na Ásia, o maoísmo (como na Grã-Bretanha e França), não tinha chance contra os grandes e sofisticados grupos da Nova Esquerda na militante Zengakuren, que não só não tinha tempo para maoismo nem para trotskismo, e que caracterizou União Soviética e China como “capitalismo de Estado”. (Apenas o pequeno e subterrâneo “Exército Vermelho” pró-norte-coreano poderia de alguma forma ser caracterizado como maoísta).

Em 1976, como mencionado anteriormente, os maoistas da “Gangue dos Quatro”, que até a morte de Mao estavam no auge do poder do Estado, foram detidos, presos e nunca mais se ouviu falar deles, enquanto os “revisionistas” liderados por Deng Xiaoping voltaram ao poder e se preparavam para lançar a China no caminho do “socialismo de mercado” ou “socialismo com características chinesas” iniciado em 1978.

Este período ideológico bizarro finalmente terminou em 1978/79, quando a China, agora um aliado firme dos EUA, atacou o Vietnã e foi rudemente forçada a recuar pelo exército vietnamita sob comando do General Giap (famoso por Dien Bien Phu). O Vietnã, ainda aliado da União Soviética, tinha ocupado o Camboja para expulsar o pró-maoísta Khmer Vermelho, que havia assumido o país em 1975 e matou mais de um milhão de pessoas. Em resposta ao ataque da China ao Vietnã, a União Soviética ameaçou atacar a China. Neste ponto, para todos os maoístas ocidentais remanescentes, a consternação era evidente.

Como em outros lugares sob diferentes formas, os maoístas nos EUA não foram tranquilamente para a noite escura. Muitos dos que foram para a indústria ou por outra maneira se enraizaram em comunidades proletárias, ascenderam a posições de influência na burocracia sindical, como Bill Fletcher do grupo Freedom Road, que foi brevemente um alto assessor de John Sweeney, quando este assumiu a AFL-CIO em 1995. Mike Klonsky da OL viajou para a China em 1976 para ser ungido como elemento de ligação oficial com o regime chinês após a queda da Gangue dos Quatro, mas isso não impediu que OL desaparecesse. RCP enviou colonizadores a cidades mineiras na Virginia Ocidental, onde se envolveram em algumas greves selvagens (contudo, algumas dessas greves foram contra o ensino de Darwin nas escolas). Em 1975, durante a crise em Boston, a RCP também apoiou a ROAR, a coalizão racista antitransporte. Em 1978 em Washington, Bob Avakian (com outros quatro membros da RCP), correu ao pódio quando Deng Xiaoping apareceu em uma conferência de imprensa com Jimmy Carter para consumar a aliança EUA-China. Foram acusados de vários crimes e Avakian permanece no exílio em Paris até hoje. Em 1984 e 1988,[18] maoístas de diferentes espécies se envolveram profundamente na corrida de Jesse Jackson à presidência, que deu origem em 1984, após a derrota de Jackson, ao fenômeno “marxistas-leninistas para Mondale”.

Os membros do Partido Comunista Operário/Communist Workers Party (CWP) sofreram um destino pior, quando, em 1979, os membros da Ku Klux Klan na Carolina do Norte (onde estavam organizados em várias cidades têxteis) dispararam em seu comício, matando cinco deles. Mas durante a ocupação de Oakland, no outono de 2011, verificou-se que ninguém menos que o prefeito de Oakland Jean Quan, assim como alguns de seus principais assessores e membros de alto nível do Conselho do Trabalho do Condado de Alameda, eram ex-membros do mesmíssimo CWP.

Mais recentemente, antigos membros do RCP que tinham se saciado com o culto à personalidade de Avakian formaram a rede Kasama, que agora possui uma influência mais ampla e mais difusa, pelo menos na internet.

Em escala mundial, recentemente maoístas compuseram um governo de coalizão no Nepal,[19] e vários grupos, alguns desde a década de 1960 ou mesmo antes, continuam ativos nas Filipinas. Os Naxalitas indianos, que eram firmemente maoístas na década de 1970 antes de serem esmagados por Indira Gandhi, tiveram uma espécie de retorno em áreas rurais pobres e a Índia tem um número de grupos Maoístas Marxistas-Leninistas com significativa base de massas. O grupo Sendero Luminoso no Peru, igualmente esmagado por Fujimori, tem feito uma reaparição constante por lá, referindo-se abertametne a grupos como o cambojano Khmer Vermelho como modelo.

Por fim, importa considerar o destino do maoísmo na própria China pós-1978. Para o regime que, desde 1978, tem supervisionado quase 35 anos de crescimento econômico praticamente ininterrupto e sem precedentes, com uma média de aproximadamente 10% ao ano ao longo de décadas, com métodos de “socialismo de mercado”, Mao Tsé-tung permanece um ícone indispensável da ideologia dominante. Em oficialês, Mao estava “70% certo e 30% errado”. Geralmente a parte “errada” se refere ao Grande Salto para Frente e à Revolução Cultural, embora discussão e pesquisa sérias sobre tais eventos continuem em grande parte, se não totalmente, tabu.

Como resultado, uma visão nostálgica e cor-de-rosa do maoísmo e da Revolução Cultural tornou-se praxe na chamada Nova Esquerda chinesa.[20] Houve até mesmo ecos do maoísmo na recente queda de BO Xilai burocrata de alto nível, ex-homem de confiança de Chongqing com um estilo decididamente populista que levou alguns de seus oponentes a alertar sobre os perigos de uma “nova revolução cultural”. Dada a impossibilidade, na China, de discussão pública franca sobre a totalidade dos anos de Mao no poder (e antes) e informação disponível em pequenos fragmentos para as gerações mais jovens sobre aqueles anos, não surpreende que correntes opostas à terrível propagação de desigualdade social e insegurança desde 1978 voltassem àquele passado mítico. Dificilmente uma tal volta seria menos reacionária e perigosa. Tudo que aconteceu pós-1978 teve sua origem na natureza do regime pré-1978. Não houve “contrarrevolução” e menos ainda transformação das relações de produção antes existentes. Mais uma vez, o maoísmo revela sua concepção de política altamente idealista e voluntarista colocando foco sobre a ideologia de líderes de cúpula, como fez anteriormente com o discurso e a política de degelo de Khruschev em 1956. A China de 1949 a 1978 preparou a China de 1978 até o presente. Mesmo aqueles que apontam para a “quebra da tigela de ferro de arroz”, [21] que era a sustentação ideológica n. 1 do antigo regime, ignoram a expressiva prática de trabalho precário nos centros industriais nas décadas de 1950 e 1960. Até que uma verdadeira “nova esquerda” na China repense seriamente o lugar do maoísmo no contexto maior da história do movimento marxista – particularmente, suas origens não na verdade e sim no stalinismo, momento de uma derrota mundial do proletariado em 1917-1921 – está fadada a reproduzir, na China e em diferentes partes do mundo em desenvolvimento, sejam cópias grotescas do período ultra-stalinista do Maoísmo (como no Peru), sejam forças preparatórias para o advento do “socialismo de mercado”, destruindo formas pré-capitalistas de agricultura e engajando-as a força na industrialização autárquica até que a chegada do capital ocidental, japonês, coreano ou (porque não?) chinês [22] possibilite a plena emergência do capitalismo.

[1] O termo “stalinismo” é usado neste artigo para descrever uma nova forma de dominação de classe por uma elite burocrática que, em diferentes épocas e diferentes situações, lutou contra as formações sociais pré-capitalistas (como na China) ou contra o capitalismo ocidental. Alguns, inclusive eu, definem o stalinismo como “capitalismo de Estado”; um número menor, influenciados pela teoria de Max Schactman, o definem como “coletivismo burocrático”. Trotskistas ortodoxos caracterizam os regimes stalinistas como “estados operários deformados”; os bordiguistas simplesmente chaman-no “capitalismo” e os marxistas-leninistas vêem tais regimes como… socialismo. Este é um enorme debate que teve lugar desde a década de 1920, mas se poderia fazer pior do que ler a obra de Walter Daum The Life and Death of Stalinism , que, ao defender uma variante da visão trotskista, argumenta que a União Soviética e todos os seus “filhos” foram capitalistas de Estado. Fora desses países, onde um regime stalinista tem o poder do Estado, eu uso o termo “stalinista” para descrever as forças que estão lutando para estabelecer, ou fazem a apologia, de uma ou outra versão do “socialismo real existente”.

[2] Cf. Stuart Schram, Mao Tse-tung (1966). Na p. 78, Schram descreve a situação de Mao, em 1925: “Mao combinou um alto cargo no Partido Comunista Chinês com a participação no Birô de Shanghai do Kuomintang … seus colegas foram Wang Ching-wei e Hu Han-min, que em breve emergiram como líderes respectivamente das alas esquerda e direita … (ele teve que retornar a Hunan para um descanso) … mas há pouca dúvida de que a sua doença era, pelo menos em parte, diplomática. Ele estava sob ataque pesado da oposição do Partido Comunista pela ênfase excessiva na cooperação com o Kuomintang … Li li-san zombava dele como ‘secretário de Hu Han-min’…”. Mais material na p. 83-84.

[3] Tudo isso é recontado em detalhes no livro de Harold Isaacs The Tragedy of the chinese revolution, publicado pela primeira vez em 1934 e reeditado várias vezes desde então. Os leitores devem ser advertidos de que Isaacs, um trotskista quando escreveu o livro, mais tarde tornou-se um “Socialista do Departamento de Estado” e a cada reedição suavizou o livro, mas mesmo as edições posteriores ainda contam a história essencial.

[4] Surgiram três facções após a morte de Lênin, em 1924: a esquerda trotskista defendendo a exportação da revolução e uma intensa política de industrialização baseada em forte extração de mais valia do campesinato; Bukharin defendeu o “socialismo a passo de caracol” com uma atitude mais flexível em relação à pequena produção capitalista dos camponeses, e Stalin “hesitante” entre ambas. Sobre isso veja a resenha do livro de John Marot em: http://insurgentnotes.com/2012/10/book-review-john-eric-marot-the-october-revolution-in-prospect-and-retrospect-interventions-in-russian-and-soviet-history-2012/.

[5] Em poucas palavras: a trajetória histórica dos camponeses em condições pré-capitalistas se mostrou ser, na maioria dos casos, para o cultivo em pequena área privada. Em tais condições, como na Rússia, eles podem ser aliados de uma revolução proletária, em que as “tarefas democráticas” da revolução socialista pelos trabalhadores combinam com as da revolução burguesa (terra aos camponeses). Existe um modo de produção burguês (capitalismo) e uma transição para o modo de produção comunista em que o proletariado é a classe dominante (socialismo), mas não existe um “modo de produção camponês”, o que limita o papel histórico dos camponeses a serem aliados de uma classe dominante ou de outra.

[6] Veja por exemplo o livro de Ygael Gluckstein Mao’s China (1955), em particular o capítulo intitulado “O recrutamento do proletariado”. Gluckstein (que mais tarde se tornou mais conhecido por seu pseudônimo Tony Cliff, líder dos socialistas internacionais britânicos, depois renomeado Partido Socialista dos Trabalhadores), foi a primeira pessoa a analisar sistematicamente a China como uma forma de capitalismo de Estado.

[7] Algumas estimativas são muito maiores. Pesquisadores discordam sobre a gravidade da fome. Um número influente é fornecido por Judith Banister, que estima em 30 milhões o número de mortes entre 1958-1961. Judith Banister, China’s Changing Population (Stanford: Stanford University Press, 1987). Uma estimativa muito maior (50-60 milhões) foi feita recentemente por Frank Dikotter, em seu controverso Mao’s Great Famine. Após um certo ponto, os números exatos não são tão importantes quanto o completo desastre causado pela política.

[8] Aparentemente, Mao ou qualquer outro membro do PCC nunca tinha lido Marx no momento de sua fundação em 1921. Eles saíram das muitas influências ideológicas na Ásia Oriental antes da Primeira Guerra Mundial: socialismo (vagamente entendido), anarquismo, pacifismo tolstoiano e Henry Georgismo dentre outros. “Voluntarismo”, nos termos aqui usados refere-se a episódios como o “Grande salto para frente” ou a ja mencionada caracterização do bloco soviético como “capitalista” baseada no discurso de Khruschev, ou na idealista definição de classe durante a Revolução Cultural não pela relação de um indivíduo com os meios de produção, mas por seus antecedentes familiares ou ideias “revisionistas”. Para o contexto das correntes ideológicas voluntaristas na época da fundação do PCC, cf. Maurice Meisner, Li ta-chao and the Origins of Chinese Marxism; sobre o voluntarismo de Mao herdado de suas primeiras leituras de Kant, cf. Frederic Wakeman, History and will; philosophical perspectives of Mao Tse-tung’s thought.

[9] A análise mais importante da Revolução Cultural nestes termos é Chairman Mao’s New Clothes de Simon Leys, publicado em francês em 1969 e traduzido para o Inglês, alguns anos depois. Leys também escreveu livros brilhantes no deserto cultural criado pelo maoísmo no poder, tanto antes como depois da Revolução Cultural: Chinese Shadows, The Burning Forest, e Broken Images. Sua obra é leitura obrigatória para qualquer um nostálgico pela”Revolução Cultural” hoje.

[10] Algumas impressões desses acontecimentos foram descritas pelo acadêmico liberal Song Yongyi. Seu livro sobre os massacres da Revolução Cultural está, infelizmente, apenas em francês e em chinês. Editou também uma “Enciclopédia da Revolução Cultural”, que é seca e acadêmica.

[11] Para conhecer a declaração mais importante de Shengwulian (1968) ver seu texto Whither China? em http://signalfire.org/?p=6810.

[12] No último trimestre de 1978, motivadas por sugestões de mudança política, pessoas começaram a colocar cartazes em locais públicos para expressar seus pontos de vista e relatar sofrimentos durante a Revolução Cultural. Em Pequim, os cartazes mais francos apareceram em um setor da parede próxima à Cidade Proibida, e isso ficou conhecido como “Democracia da Parede”. Incialmente tolerados pela nova liderança de Deng Xiaoping, o partido decidiu agir – com prisões e encarceramentos dos líderes do movimento – quando as críticas continuaram a aumentar e manifestantes começaram a chegar à capital exigindo que as decisões proferidas durante a Revolução Cultural fossem revertidas. O crítico mais proeminente, Wei Jingsheng, chamou a China a adotar a democracia como a “quinta modernização”, numa crítica implícita a Deng que disse que a China só precisava de quatro. Em 1997, após 18 anos na prisão, Wei Jingsheng foi exilado para os EUA. (Nota do tradutor).

[13] Ver http://www.rjgeib.com/thoughts/china/jingshen.html

[14] “Gangue dos Quatro” foi como passaram a ser chamados, criticamente, os líderes da Revolução Cultural no seu final. O órgão central original que dirigia as coisas, tanto abertamente quanto nos bastidores, era composto por 10 pessoas. Entre estes estavam Kang Sheng, Chen Boda, Jiang Qing, Yao Wenyuan, Wang Li e outros.

[15] Mais uma vez, os livros do já mencionado Simon Leys fornecem lindos retratos do clima ideológico e cultural na China até 1976. Um livro curioso, para ser lido com cautela porem útil, é do Dr. Li Zhisui, The Private Life of Chairman Mao (1994). Li foi médico pessoal de Mao de 1956 a 1976 e viveu a maior parte desses anos compondo a elite em Pequim com outras pessas da cúpula do partido e viajou com Mao onde quer que fosse. A tradução em Inglês do livro foi recebida pela mídia com foco sensacionalista por conta do voraz apetite sexual de Mao por belas e jovens mulheres, o que, na verdade, é um tema menor. Seu interesse real é o retrato das idas e vindas das pricipais lideranças do PCC durante os últimos 20 anos da vida de Mao, suas ascensões e quedas. Também relata a profunda leitura de Mao sobre a história dinástica chinesa, as chamadas “24 histórias dinásticas”, cobrindo os anos de 221 AC a 1644 DC. O fascínio de Mao era, acima de tudo, com intrigas da corte. De acordo com Li, ele tinha a maior admiração por alguns dos “mais impiedosos e cruéis” imperadores, como Qin Shihuangdi (221-206 AC), que fundou a dinastia Qin, de curta duração. Qin ordenou a infame “queima dos livros” e executou muitos estudiosos de Confúcio (p. 122). Outro favorito era o imperador Sui Yangdi (604-618), que ordenou a construção do Grande Canal por meio de trabalho recrutado massivamente, durante os quais milhares morreram.

[16] Mas outra explicação veio à tona no livro de Yao Ming-Le The Conspiracy and Death of Lin Biao, cuja tradução para o Inglês foi publicada em 1983. Ele se propõe a ser um relato escrito sob pseudônimo de um membro do alto escalão do PCC que foi designado para desenvolver a fictícia história do voo e morte de Lin. De acordo com Yao, uma luta de morte entre Mao e Lin estava em curso, e Lin estava tramando um golpe para derrubar e matar Mao. A trama foi descoberta e Lin Biao foi preso e executado. Não menos cético com fontes que saem da China, Simon Leys, em seu livro The Burning Forest, argumenta que o relato de Yao concorda com outros fatos conhecidos.

[17] Para um relato completo, veja o livro de Max Elbaum Revolution in the Air, que enxerga estes grupos como os “melhores e mais brilhantes” a surgir na América dos anos 1960. Para uma breve explicação, ver o meu comentário polêmico de Elbaum “Didn’t See The Same Movie” em http://home.earthlink.net/~lrgoldner/elbaum.html.

[18] Esta incursão na política do Partido Democrata é entusiasticamente relatada no livro de Max Elbaum já referido.

[19] Para uma série de artigos sobre a participação de maoístas no governo nepalês, consulte http://libcom.org/tags/nepal

[20] Sobre a Nova Esquerda chinesa ver artigo de Lance Carter em http://insurgentnotes.com/2010/06/chinese-new-left/.

[21] O autor se refere à expressão idiomática chinesa “tigela de arroz de ferro” que faz menção ao sistema de emprego vitalício garantido. Instaurado com a vitória da revolução em 1949, representou um pacto entre as distintas classes sociais vitoriosas por meio do Estado. Proletariado e campesinato foram colocados sob controle do Estado e suas unidades de trabalho controlavam cada aspecto da vida cotidiana, incluindo moradia, alimentação, vestuário, casamentos e filhos. Em contrapartida, as unidades de trabalho (leia-se gestores) cuidariam de seus trabalhadores para toda a vida. Quando a corrente capitalista liderada por Deng Xiaoping derrotou a corrente capitalista lidrada por Mao Tsé-Tung e começou suas reformas trabalhistas em 1980 para aumentar a produtividade econômica, os empregos incluídos na “tigela de arroz de ferro” do governo foram os primeiros a serem atacados. Milhões de trabalhadores foram demitidos bem como empresas estatais foram reestruturadas ou fechadas, em clara expressão do antagonismo de interesses entre proletários e camponeses de um lado e gestores (nas empresas, no PCC e no aparelho de Estado) de outro. (Nota do tradutor)

[22] O investimento chinês na África nos últimos anos, com o objetivo primordial de aquisição de matérias-primas, assumiu graves dimensões. Alguns líderes africanos já alertam para um “novo colonialismo”. No nível da alta comédia, líderes ocidentais têm a audácia de advertir solenemente a China a “não explorar os recursos naturais da África”. (!)